O Rio da Alma: Navegando as Curvas da Vida com Presença e Consciência
A vida frequentemente nos lembra de que não existe um caminho reto, previsível, ou com certeza absoluta. Ela é mais como um rio que serpenteia, com águas calmas e trechos turbulentos — transições que muitas vezes parecem imprevisíveis, abruptas e difíceis de atravessar.
Quando estamos nessa jornada, é comum sentir medo das curvas que se aproximam, insegurança diante das corredeiras inesperadas, ou a sensação de estar sendo arrastada(o) sem saber para onde. Essa experiência não é uma falha de caráter nem sinal de fraqueza — é a expressão viva de um sistema nervoso que está reagindo ao desconhecido.
A neurociência do trauma, como estudada por Bessel van der Kolk, nos mostra que experiências emocionalmente intensas ficam “registradas” no corpo, influenciando nossa forma de reagir, de sentir, de antecipar o perigo. O que muitas vezes sentimos como “medo do desconhecido” não é só uma metáfora: é o corpo inteiro trazendo à tona padrões antigos de regulação neurológica.
Stephen Porges, na Teoria Polivagal, nos explica que esses estados são respostas adaptativas do sistema nervoso diante de ameaça percebida. E é justamente nesses momentos que o “rio da alma” parece nos desafiar mais fortemente — porque nossa ansiedade, nosso congelamento ou hiperatividade não são erros, mas tentativas do organismo de proteger o indivíduo.
O convite, então, não é resistir às curvas ou tentar controlar cada trecho do rio.
Ele é para estar presente com o que acontece agora.
Essa presença — esse olhar atento para o próprio corpo, emoções e pensamentos — é o que permite que você navegue as curvas com mais segurança, mesmo que elas pareçam assustadoras.
Na psicologia analítica de Carl Jung, essa travessia é também uma jornada de individuação: a alma não busca caminhos fáceis, mas caminhos verdadeiros. Ela nos chama para sair do automático e entrar em contato com o centro da própria experiência — o eixo entre Ego e Self.
Cada curva, cada mudança de leito, cada correnteza que você atravessa é também uma oportunidade de:
sentir suas emoções sem fugir delas
reconhecer padrões que sempre te trouxeram de volta ao mesmo lugar
compreender o que é reação e o que é escolha consciente
aprender a contar com sua própria capacidade de adaptação
restabelecer presença no corpo e na mente
Não se trata de suprimir o medo, a incerteza ou a dor.
Trata-se de reconhecer que esses estados também têm uma mensagem, uma função adaptativa — e de aprender a responder desde o centro da sua consciência, não a partir de velhas respostas automáticas.
A vida não é um rio a ser controlado.
É um rio em que aprendemos a navegar com presença, consciência e responsabilidade.
E só é possível atravessar as curvas quando aprendemos a nos tornar navegadores de nós mesmos — e não apenas passageiros.
Cida Medeiros
Psicoterapeuta Integrativa e Sistêmica — Clínica da Alma e da Consciência



.jpg)



%2011.02.20_96b9a859.jpg)

