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NR-1 e Saúde Mental no Trabalho: quando o cuidado deixa de ser opcional

 

NR-1 e Saúde Mental no Trabalho: quando o cuidado deixa de ser opcional

Durante muito tempo, o trabalho foi visto apenas como lugar de produção. Produzir mais, entregar mais, render mais.
O que ficava para trás — o cansaço emocional, o medo, a angústia silenciosa, o adoecimento — era tratado como fraqueza individual.

A NR-1 surge como um ponto de virada importante nesse cenário.
Ela não fala apenas de máquinas, capacetes ou procedimentos técnicos. Ela fala, ainda que de forma indireta, da vida que pulsa dentro das organizações.


O trabalho como sistema vivo

Na visão sistêmica, nenhum indivíduo adoece sozinho.
O sofrimento aparece quando o sistema — família, empresa, equipe — perde sua capacidade de sustentar, nutrir e proteger.

A NR-1 introduz oficialmente o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), e com isso reconhece algo essencial:

O ambiente de trabalho influencia diretamente a saúde física, emocional e relacional das pessoas.

Quando uma organização exige metas impossíveis, ignora limites humanos ou naturaliza relações abusivas, ela cria riscos.
E riscos não gerenciados, cedo ou tarde, se transformam em adoecimento.


Riscos psicossociais: o que antes era invisível agora precisa ser visto

A NR-1 amplia o conceito de risco.
Não estamos falando apenas de ruído, produtos químicos ou acidentes físicos.

Estamos falando também de:

  • sobrecarga emocional

  • pressão constante

  • medo de errar

  • falta de reconhecimento

  • ambientes hostis

  • assédio moral velado ou explícito

  • jornadas que não respeitam o ritmo humano

Esses fatores, conhecidos como riscos psicossociais, passam a fazer parte da responsabilidade institucional.

Do ponto de vista terapêutico, isso é profundo.
Porque desloca a culpa do indivíduo para o campo relacional.


A NR-1 como convite à consciência sistêmica

A lógica da NR-1 não é punitiva — ela é preventiva.
Ela propõe um movimento contínuo:

Identificar → Avaliar → Cuidar → Ajustar → Revisar

Esse ciclo se parece muito com o processo terapêutico:

  • olhar com honestidade para o que dói

  • reconhecer padrões adoecedores

  • criar novas formas de agir

  • sustentar mudanças no tempo

A empresa, assim como a pessoa em terapia, é chamada a amadurecer.

Onde a Psicologia entra nesse processo

A NR-1 não substitui a clínica, mas abre espaço para o cuidado coletivo.

A Psicologia Organizacional e Sistêmica contribui ao:

  • compreender o clima emocional das equipes

  • identificar padrões de adoecimento institucional

  • apoiar lideranças mais conscientes

  • criar espaços de escuta e prevenção

  • transformar a cultura, não apenas o indivíduo

Cuidar da saúde mental no trabalho não é “mimar”.
É responsabilidade ética, legal e humana.


Quando o sistema cuida, o indivíduo floresce

Na clínica, vemos diariamente pessoas adoecidas por ambientes que exigem demais e acolhem de menos.
A NR-1 aponta para uma possibilidade diferente:

Ambientes que reconhecem limites, respeitam ritmos e compreendem que pessoas não são peças substituíveis.

Quando o sistema muda, o indivíduo não precisa adoecer para pedir socorro.


Considerações finais

A NR-1 marca uma mudança silenciosa, porém profunda:

  • do controle para a consciência

  • da punição para a prevenção

  • da produtividade cega para o cuidado com a vida

Ela nos lembra que trabalhar não deveria custar a saúde emocional de ninguém.

Cuidar do trabalho é, no fundo, cuidar das pessoas que o sustentam.

“Se você atua ou deseja atuar com saúde mental no trabalho, há também questões importantes sobre limites profissionais e ética. Falo sobre isso no texto: Quem pode atuar com saúde mental no trabalho?


Cida Medeiros
Sou psicoterapeuta integrativa, com formação em Psicologia, e atuo de forma independente, integrando abordagens terapêuticas, sistêmicas e práticas de cuidado emocional.

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