Bem Vindo ao Blog Cida Medeiros! Caleidoscópio do Saber com Cida Medeiros

Bert Hellinger e o tempo: quando parece que ele parou

Uma ampulheta clássica com areia fluindo suavemente sobre madeira rústica, banhada por luz natural acolhedora.
 

Bert Hellinger e o tempo: quando parece que ele parou

Por Cida Medeiros, terapeuta sistêmica, holística, transpessoal e facilitadora de constelações familiares

Quando o tempo passa pela janela

Segundo Bert Hellinger, o tempo nunca para: quem para somos nós. Ainda assim, há períodos da vida em que parece que o tempo parou. Vemos o tempo passar pela janela, como quem olha a rua de dentro de casa, enquanto por dentro nada se move. Eu já vivi isso. E aprendi que nenhum nível de preparo interno nos poupa desses momentos.

Foi nesses períodos que voltei várias vezes a um texto curto de Bert Hellinger sobre o tempo. Ele não consola, não promete e não aconselha. Descreve. E talvez por isso diga tanto.

O que Bert Hellinger ensinou sobre o tempo

Para Hellinger, o tempo flui e está sempre em movimento. Quando dizemos que ele parou, na verdade fomos nós que paramos, enquanto o tempo continua fugindo de nós. Só há tempo onde algo se move, e só o medimos através de algo que se move.

Cada coisa tem, no tempo, o seu próprio tempo: começa e termina a seu tempo, enquanto o tempo continua a correr. E há um momento certo para cada coisa. Ele escreve:

"No tempo, tudo tem o seu momento certo, o que acontece antes dele, acontece no momento errado."

Passado o momento certo, diz ele, o tempo foi desperdiçado: não há como recuperá-lo. É uma constatação sóbria, quase severa.

Mas o texto não termina aí. Hellinger acrescenta que parece haver algo antes do tempo e além dele, algo que dura sem tempo e que se opõe a ele. Nós o pressentimos sem captá-lo, somos carregados por ele no tempo e voltamos a afundar nele depois do tempo. Note o "parece": ele fala como quem pressente, não como quem afirma.

Estar com Hellinger: o tempo dos seminários

Tive a oportunidade de estar com Bert Hellinger, cara a cara, em seminários, desde 2012 até a última vez em que ele veio ao Brasil, e também uma vez na Alemanha. Pude acompanhar de perto os movimentos que ele conduzia e fazer-lhe perguntas pessoais.

Naquela época eu era facilitadora de constelações familiares e vivia o trabalho intensamente. Tinha muitos grupos, recebia convites de colegas para conduzir vivências, tinha clientes em vários lugares do Brasil e fora dele. Lembro de uma brasileira que morava em Viena e preferiu fazer o atendimento comigo. Isso foi especial para mim. Eu mantinha um espaço em Moema, atuava no espaço do Itaim, e ia pontualmente aos grupos de colegas para conduzir as vivências. Foi um período muito rico de significado.

O tempo como solvente

Tudo isso foi silenciando com o tempo, principalmente depois da pandemia. Decidi concluir a graduação em psicologia, que ainda tinha dois anos pela frente, e me dediquei a fundo a compreender o olhar da psicologia. Isso mudou tudo.

Às vezes penso que o tempo agiu como um solvente universal: tudo o que eu fui, fiz e vivi foi se dissolvendo. A antiga forma já não cabe mais. A nova está, por assim dizer, num útero misterioso: não sei o que está sendo gestado, nem quando vai nascer, nem se vai nascer. O que posso fazer é cuidar desse momento da melhor maneira possível e, quando cabe, usar o que aprendi para desatar nós e ter mais clareza sobre o próximo passo.

Há também algo novo nesse tempo presente: uma vontade de aproveitar coisas simples que eu não fazia antes. A rede na sala. Um filme com pipoca à noite. Algo impensável na época em que tudo era trabalho, estudo, treinamento e supervisão.

O trem e a estação

Imagino a vida como um trem que segue viagem. Em determinada estação, o autor principal desce do vagão e toma a estrada que pertence ao mistério da vida, a morte. Nós permanecemos em nossa jornada. Hellinger faleceu em 2019, e o tempo em que estive presente nos seminários é um tempo que passou.

Essa imagem é minha, não dele. Mas ela dialoga com o fim do texto dele: somos carregados pelo tempo e depois voltamos a afundar nele.

Um tempo que carrega sentido

A seguir, uma leitura pessoal, que não é de Hellinger.

Para mim, a ideia de que existe um momento certo traz conforto e esperança. Hellinger não promete que o momento certo chegará. O que ele afirma é que o que vem antes acontece no momento errado. Mas é a partir dessa frase que consigo suportar a espera: se há um tempo certo, então não preciso forçar o que ainda não é hora.

Há também a percepção de que nem todo tempo é igual. Os gregos distinguiam chronos, o tempo que se mede no relógio, de kairos, o tempo oportuno, carregado de sentido. Existem fases em que vivemos o melhor, ou estamos fazendo algo que cria um sentido maior do que o tempo comum. Os anos ao lado de Hellinger foram, para mim, um tempo assim.

Se você sente que o tempo parou, talvez não seja o tempo que parou. Talvez seja uma pausa, uma estação, uma gestação. Pergunto a você: o que está se dissolvendo na sua vida neste momento?

Fonte

HELLINGER, Bert. Pensamentos a Caminho. Atman, 2005, Newton de Araújo Queiroz, 1° edição. Texto "O Tempo".

Sobre a autora: Cida Medeiros, Graduada em Psicologia e facilitadora de constelações familiares desde 2009. Acompanhou seminários de Bert Hellinger entre 2012 e sua última visita ao Brasil, e uma vez na Alemanha. Terapeuta Holística a mais de 30 anos.


Leia também:



Por Que Repetimos os Mesmos Erros?

 

Foto conceptual em luz dourada mostrando mãos maduras sobre uma mesa de madeira. Uma mão segura um cubo de madeira, enquanto a outra aponta para um fio de lã emaranhado que forma um caminho sinuoso. A imagem simboliza a dificuldade de mudar padrões repetitivos. Foco suave no emaranhado e nas mãos.

Por Que Repetimos os Mesmos Erros? O Cérebro, a Alma e a Difícil Arte de Mudar


Você já teve a sensação frustrante de olhar para trás e se perguntar: "Por que eu fiz isso de novo?" Parece um roteiro repetido. Escolhemos a mesma dinâmica de relacionamento que nos fere, caímos nos mesmos hábitos que drenam nossa energia ou sabotamos aquela oportunidade que tanto queríamos. Ficamos com a nítida impressão de que estamos nadando contra a maré, gastando forças preciosas apenas para nos mantermos no mesmo lugar.

Se você já se culpou por parecer "resistente à mudança", respire fundo. Essa sensação de estar preso em um loop não é falta de força de vontade. É o resultado de uma engrenagem complexa que une a biologia do nosso cérebro, as memórias guardadas em nosso corpo e as leis invisíveis que regem nossa história familiar e emocional.

1. O Pilotar Automático: Quando a Sobrevivência Vence a Vontade

Para entender por que é tão difícil mudar, precisamos olhar para dentro da nossa própria biologia. O cérebro humano foi moldado primariamente para a sobrevivência, e não para a felicidade plena. Para economizar energia vital, ele adora Atalhos. Quando repetimos um comportamento — seja ele saudável ou destrutivo —, criamos verdadeiras autoestradas neuronais.

Mudar significa abrir uma trilha nova na mata fechada: exige esforço, atenção e muita energia. É por isso que, diante de um estresse, o cérebro recorre imediatamente ao conhecido, mesmo que o conhecido seja doloroso.

Conceito-chave: Neuroplasticidade e eficiência energética. O cérebro prefere a dor familiar à incerteza do desconhecido, interpretando o novo quase como uma ameaça à integridade física.

Na prática do meu trabalho, vejo isso todos os dias. Pessoas exaustas que continuam assumindo responsabilidades excessivas não porque querem sofrer, mas porque o cérebro aprendeu que a utilidade é o único caminho seguro para merecer afeto. Romper com esse padrão aciona um alarme interno de perigo que faz o corpo inteiro querer voltar atrás.

2. Lealdades Invisíveis: O Que a Alma Tenta Dizer Através dos Erros

Mas a neurociência explica o como, não o porquê profundo de certas escolhas que parecem desafiar a lógica. Sob uma ótica sistêmica e transdisciplinar, muitas das nossas chamadas "escolhas estúpidas" são, na verdade, tentativas desesperadas de pertencimento.

Muitas vezes repetimos padrões de escassez, de relacionamentos abusivos ou de autoanulação porque, inconscientemente, estamos leais a destinos de pessoas do nosso clã familiar. É como se a alma dissesse: "Se eles sofreram assim, eu também sofrerei para pertencer a esta família".

Quando tomamos decisões que parecem ir contra o nosso próprio bem-estar, costuma haver uma força amorosa (porém cega) operando nos bastidores. Não é burrice; é um movimento arcaico de conexão. Enquanto não iluminamos esses emaranhados, continuamos repetindo o passado sob o disfarce de escolhas do presente.

3. A Travessia: Como Encontrar a Saída Sem Violência Interna

A grande virada de chave acontece quando paramos de nos tratar como inimigos a serem combatidos e passamos a nos olhar com curiosidade compassiva. A mudança real não nasce da autocrítica feroz, mas da expansão da nossa capacidade de sustentar o desconforto.

Conceito-chave: Tolerância à incerteza e regulação emocional. Mudar exige aprender a habitar o vazio que surge quando abandonamos um velho padrão antes que o novo hábito tenha se consolidado.

Quando a vontade de repetir o erro surgir, experimente pausar. Não lute contra o impulso; apenas observe-o. Diga a si mesmo: "Eu entendo que você quer me proteger com esse caminho antigo, mas agora nós podemos escolher diferente".

A transformação não acontece de uma hora para a outra. Ela se constrói naqueles pequenos segundos de lucidez em que, em vez de reagir no automático, você consegue respirar, acolher sua dor e dar um passo mínimo em direção ao que realmente nutre a sua vida.

Conclusão

Fazer escolhas que parecem ir contra a maré ou repetir padrões dolorosos não atesta fraqueza moral. É apenas o reflexo de um cérebro buscando segurança e de uma alma tentando encontrar o seu lugar no mundo. A boa notícia é que, embora o caminho seja exigente, a neuroplasticidade nos garante que novas rotas podem ser construídas a qualquer momento da vida. A mudança deixa de ser um peso insuportável e passa a ser um ato diário de reencontro consigo mesmo.

Qual foi o padrão ou comportamento recente que você percebeu estar repetindo e que gostaria de começar a olhar com mais compaixão? Compartilhe nos comentários, sua partilha pode ecoar na dor de alguém que está lendo este texto agora.

Continue sua jornada de autoconhecimento explorando nosso artigo sobre como acolher a exaustão mental invisível no dia a dia. Gosta do nosso conteúdo e quer ajudar a manter este espaço de acolhimento vivo e acessível? Você pode apoiar o blog compartilhando este texto com alguém querido ou deixando sua reflexão nos comentários.


Palavras-chave: repetição de padrões, neurociência da mudança, visão sistêmica, autossabotagem, regulação emocional, autoconhecimento, desenvolvimento pessoal, dor emocional, psicologia da alma, transdisciplinaridade.

O Legado de Sri Bhagavan e a Sabedoria da Impermanência



Sri Bhagavan e o Mahasamadhi: Sabedoria da Impermanência

A notícia de que um grande mestre espiritual deixou seu corpo mortal e alcançou o Mahasamadhi desperta em nós um portal de reflexão profunda. Se anos atrás a reação imediata diante de uma partida assim seria um silêncio denso e carregado de dor, hoje a jornada da consciência nos convida a uma compreensão completamente diferente. Este momento é um grandioso exercício do significado profundo da impermanência e dos ensinamentos que essas transformações deixam em quem permanece. Quando a matéria cessa, percebemos que a vida continua adiante, enquanto o sopro que nos anima pulsa através deste corpo provisório e do tempo que é divino. Se você busca compreender as transições da vida e os estados alterados de consciência além do senso comum, esta reflexão é para você.

1. A Transcendência da Mente e a Ciência do DMN

Para quem vive apenas no sensorium do senso comum, a perda de uma referência física é sinônimo de sofrimento absoluto. No entanto, quem já navegou por processos profundos de transformação interior compreende que as experiências místicas e meditativas são estados genuínos de transcendência da mente.

A neurociência moderna, através das pesquisas sobre o DMN (Rede de Modo Padrão ou Default Mode Network), começa a nos dar pistas sobre como o cérebro se silencia quando acessamos estados elevados de consciência. Obviamente, no cotidiano, experienciamos a realidade física como qualquer pessoa; porém, quando entramos nesses espaços maravilhosos de consciência, a mente se aquieta, a atividade egoica diminui e o bem-estar inabalável se instala. É a prova de que nossa identidade essencial vai muito além dos pensamentos cotidianos e que é possível experimentar a paz em meio às grandes transições.

2. A Ressonância Coletiva e Minha Experiência com Sri Bhagavan

Em 2017, tive o privilégio indescritível de estar na Índia e receber os ensinamentos e darshans de Sri Bhagavan. Com ele, vivi curas profundas, estados elevados de consciência, vivências místicas e o despertar para uma felicidade e um amor sem causa, algo tão puro que foge ao vocabulário comum.

Quando recebi a notícia de sua passagem, algo surpreendente aconteceu — um impacto real que muitos do movimento também sentiram, mas livre de desespero. Como milhares de sevaks ao redor do mundo entraram em profundo estado de meditação, ananda e pico em perfeita ressonância, também fui banhado por essa paz. Fiz minha meditação, conectei-me com meu amado mestre e fiz meus agradecimentos. Não experimentei dor ou sofrimento; fui tomado por um estado pacífico, com a mente calma e silenciosa. Em vários momentos do dia, parei, meditei e segui com minhas tarefas diárias ancorado em um estado intenso de presença, tolerância à incerteza e regulação emocional.

3. As Cerimônias de Despedida e o Legado que Continua

Sri Bhagavan deixou seu corpo mortal e alcançou o Mahasamadhi nesta tarde, em um momento de profunda graça, essa notícia veio direto da Índia. As cerimônias oficiais de despedida começam às 5 horas da manhã do dia 30 de setembro e seguem até o dia 2 de outubro.

Para aqueles que desejam acompanhar, homenagear e sintonizar-se com esse momento sagrado, haverá transmissão ao vivo através do canal oficial no YouTube: Transmissão Mahasamadhi de Sri Bhagavan. A vida continua além da matéria, e o legado dos ensinamentos que recebemos pulsa vivo em nossos corações, guiando-nos na expansão contínua da consciência.

Conclusão

A partida de um avatar terreno não encerra sua obra; ela se expande para o campo sutil da nossa própria prática e vivência diária. A impermanência nos recorda que o corpo é passageiro, mas a centelha divina da presença é eterna.

Como você has vivenciado as transições e os momentos de profunda mudança em sua própria jornada espiritual? Deixe seu comentário abaixo e compartilhe suas percepções com nossa comunidade.


Apoie a continuidade deste trabalho 🌿

Se este artigo ecoou em seu coração e você deseja apoiar a manutenção deste blog e a criação de conteúdos independentes voltados à expansão da consciência, você pode fazer uma contribuição voluntária via PIX utilizando a chave aleatória abaixo (seus dados pessoais permanecem totalmente protegidos):

Chave PIX (Aleatória): 05f271f8-c848-4321-9c7b-6d4105cff227

Gratidão imensa por caminhar junto e fortalecer essa rede de luz e partilha! 🙏✨

Palavras-chave: Sri Bhagavan, Mahasamadhi, impermanência, espiritualidade, DMN, transcendência da mente, Oneness GAM Brasil, amor incondicional, meditação, estados alterados de consciência.

Além do Fardo: Constelações Familiares, Psicologia Profunda e a Culpa Infantil

Ilustração conceitual representando a individuação e o equilíbrio emocional, com tons de âmbar e verde-petróleo, simbolizando a liberdade e a maturidade pessoal.

Além do Fardo: Constelações Familiares, Psicologia Profunda e a Culpa Infantil


Quem acompanhou de perto os ensinamentos de Bert Hellinger — seja nos grandes seminários internacionais, nos treinamentos de bastidores ou na convivência com sua mente sagaz, filosófica e multifacetada — sabe que sua maior marca nunca foi o conforto, mas a verdade nua e crua. Hellinger trazia uma bagagem vasta: padre, missionário, filósofo, profundo conhecedor da psicanálise e do grito primal. Suas colocações, contudo, eram frequentemente mal compreendidas porque tocavam em feridas que preferíamos anestesiar.

No Brasil, berço fértil para a espiritualidade e para os fenômenos da alma, as constelações familiares encontraram um abraço caloroso. Porém, muitas vezes carecemos de uma ponte mais sólida com o rigor acadêmico e com a psicologia profunda. Do outro lado, a psicologia tradicional frequentemente olha para o campo sistêmico com desconfiança — uma barreira que quem transita pelas duas margens sabe que precisa ser derrubada.

Afinal, a verdadeira cura não nasce do fanatismo por um método, mas da integração de saberes.

Para ilustrar essa travessia, tomemos uma das passagens mais desafiadoras de Hellinger sobre a culpa dos filhos e os acordos conjugais dos pais:

(...) Se sua mãe disse que você foi a razão de ela aturar o marido, não lhe contou toda a verdade. E se você pensa que isso aconteceu realmente, vai se sentir importante demais. Ela ficou com o seu pai porque aceitava as consequências das próprias ações... O filho não tem parte ativa no acordo entre os pais; o pai ou a mãe é que se sente responsável... Esses filhos não têm culpa alguma e não precisam sentir remorsos. Muitos filhos, porém, agem assim e por isso se julgam importantes demais. — Bert Hellinger

Por que nos sentimos o centro do universo familiar?

Na primeira infância, a psique opera em um estado de fusão com o ambiente. A criança experimenta a si mesma e aos cuidadores como extensões de suas próprias necessidades, acreditando ser o eixo gravitacional do mundo dos pais.

Quando um adulto carrega a crença de que foi o "salvador" do casamento dos pais ou a âncora que impediu a separação, ele permanece fixado nessa fantasia de grandiosidade infantil. Acreditar que "foi por minha causa" alimenta o ego de forma narcísica, mas cobra o preço mais alto possível: gera uma culpa inconsciente esmagadora e sabota a autonomia.

Como devolver o destino aos pais e iniciar a individuação?

Para Carl Jung e a psicologia profunda, a individuação exige que o indivíduo veja os pais não como deuses salvadores nem como devedores perpétuos, mas como seres humanos falíveis que respondem por suas próprias escolhas existenciais.

Quando Hellinger aponta que os pais permanecem juntos por seus próprios acordos e limitações, ele faz um movimento clínico cirúrgico: devolve aos pais o que é dos pais e retira dos ombros dos filhos um fardo que jamais lhes pertenceu. Liberar os pais da obrigação de terem vivido "por causa dos filhos" é o que permite ao indivíduo deixar de ser um "objeto de resgate" emocional e tornar-se, finalmente, o sujeito de sua própria história.

Onde a linha tênue entre o olhar sistêmico e a evitação nos engana?

Existe uma armadilha sutil e muito comum na prática terapêutica moderna: a busca infinita por "culpados" no passado ou nos ancestrais. Não são poucas as pessoas que fazem constelações em série, saltando de um emaranhamento a outro, usando o campo sistêmico como uma nova forma de evitar a responsabilidade pelo presente.

Como Hellinger alertava, persistir na caça aos culpados familiares ou a dinâmicas ocultas sem fim pode ser uma forma velada de não crescer. Quando há traumas profundos, vínculos interrompidos, identificações rígidas ou baixa autoestima, é imperativo buscar orientação psicológica especializada. O trabalho sistêmico ilumina o campo, mas o processo de individuação exige o manejo clínico contínuo para que a pessoa possa metabolizar a dor, sair do papel de vítima e bancar as rédeas da própria vida.

Por que a falsa culpa funciona como um controle mágico?

Por que tantos filhos carregam um remorso profundo por se sentirem o "motivo" de um casamento infeliz?

Sob a lente da psicologia clínica, essa culpa costuma funcionar como uma estratégia defensiva do psiquismo: a pessoa prefere se sentir culpada (o que ainda lhe dá a ilusão mágica de poder sobre o passado — "se a culpa é minha, eu poderia ter mudado" —) do que aceitar a dura, trágica e libertadora realidade de que a vida dos pais é soberana e totalmente independente de sua existência. Sentir-se culpado é, paradoxalmente, uma forma de continuar exercendo um controle ilusório sobre o passado.

Conclusão: A ponte entre a alma e a maturidade

Tanto a psicologia quanto as constelações têm suas sombras: academias engessadas que limitam o sofrimento a manuais frios, e práticas sistêmicas que, por vezes, negligenciam a estrutura do ego e a responsabilidade individual.

Integrar essas visões significa compreender que "tomar os pais" de verdade não é idolatrá-los, nem carregar suas culpas ou terceirizar a própria cura para o campo ancestral. É ter a coragem de perdoar-lhes a humanidade. É reconhecer que eles erraram, escolheram e arcaram com as próprias consequências, libertando-nos, enfim, do pesado e inútil fardo de sermos os salvadores da história alheia.

Cida Medeiros

Para aprofundamento e referências:

  • Hellinger, Bert. A Simetria Oculta do Amor: Princípios e Práticas das Constelações Familiares. São Paulo: Cultrix. (Trecho de referência sobre os acordos conjugais e a ilusão da culpa dos filhos).

  • Jung, C. G. O Eu e o Inconsciente (Obras Completas de C. G. Jung, vol. 7/2). Petrópolis: Vozes. (Para o estudo do processo de individuação e diferenciação psíquica).

  • Jung, C. G. Tipos Psicológicos (Obras Completas, vol. 6). Petrópolis: Vozes. (Para a compreensão da participação mística e das estruturas arquetípicas da psique).


Leia Também:


Quando fazer o que é certo começa nos afastar de nós mesmos.


Do campo sistêmico ao cotidiano