Bem Vindo ao Blog Cida Medeiros! Caleidoscópio do Saber com Cida Medeiros: Trauma * Corpo e Sistema Nervoso
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Quando o corpo trava, a alma pede presença

 


Quando o corpo trava, a alma pede presença

Você já percebeu como, em alguns momentos da vida, o corpo simplesmente desliga?

A mente quer seguir, tomar decisões, resolver, mas o corpo não responde. Vem o cansaço inexplicável, a falta de energia, a ansiedade que não passa, a sensação de estar paralisada(o) por dentro. Como se algo em você tivesse apertado um botão de emergência.

Isso não é fraqueza.
Não é preguiça.
E muito menos falta de força de vontade.

Isso é o seu sistema nervoso tentando te proteger.


O que está acontecendo de verdade

Segundo a neurociência do trauma, especialmente os estudos de Bessel van der Kolk, o corpo guarda experiências que a mente não conseguiu elaborar. Quando algo foi vivido como ameaça, abandono, rejeição ou violência, o organismo aprende a reagir automaticamente.

Stephen Porges, com a Teoria Polivagal, nos mostra que, diante do perigo, nosso sistema nervoso pode entrar em três estados principais:

  • Vaso ventral: quando nos sentimos seguros, conectados e presentes.

  • Simpático: quando entramos em luta ou fuga.

  • Vago dorsal: quando o corpo entra em colapso, congelamento ou desligamento.

Muitas pessoas vivem grande parte da vida presas nesse terceiro estado: funcionando por fora, mas desconectadas por dentro.

Gabor Maté nos lembra que o trauma não é apenas o que aconteceu, mas o que aconteceu dentro de nós quando não tivemos apoio suficiente para atravessar uma experiência difícil.

O corpo não esquece.
Ele aprende a sobreviver.


Quando a alma perde o eixo

Na psicologia profunda de Carl Jung, esse estado de desconexão aparece como um afastamento do eixo entre Ego e Self. A pessoa perde o contato com sua fonte interna, com sua identidade profunda, com o centro que dá sentido e direção à vida.

Aos poucos, surgem:

  • sensação de vazio

  • dificuldade de se posicionar

  • medo de errar

  • dependência emocional

  • repetição de padrões de sofrimento

  • relações que adoecem

  • baixa autoestima

  • perda de sentido

Na terapia sistêmica, vemos que muitos desses padrões são sustentados por vínculos familiares, lealdades invisíveis e triangulações que mantêm a pessoa presa a histórias que não são mais suas.

E, na base de tudo isso, está quase sempre um corpo que aprendeu a viver em estado de ameaça.


Trauma não é fraqueza. É adaptação.

O trauma não é sinal de fragilidade.
É sinal de que você fez o melhor que podia com os recursos que tinha.

Mas aquilo que um dia te protegeu pode hoje estar te impedindo de viver.

Por isso, não basta entender com a cabeça.
É preciso envolver o corpo.
É preciso restaurar a sensação de segurança interna.
É preciso reconstruir o eixo.

A verdadeira cura acontece quando o corpo volta a sentir que o presente é um lugar seguro.


Reconectar-se com a própria fonte interna

Existe um caminho possível.

Um caminho de retorno ao corpo.
De retorno à presença.
De retorno à consciência.
De retorno ao seu centro.

Um caminho onde você aprende a reconhecer seus estados internos, regular suas emoções, dissolver padrões inconscientes, integrar sua história e reconstruir sua autonomia.

Um caminho de reconexão com a sua própria fonte interna.

Não se trata de apagar o passado.
Mas de libertar o presente.

Não se trata de se tornar outra pessoa.
Mas de se tornar, com mais consciência, quem você já é.


Se algo neste texto tocou você, talvez não seja por acaso.

Algumas travessias não precisam ser solitárias.


Cida Medeiros
Psicoterapeuta Integrativa e Sistêmica — Clínica da Alma e da Consciência



Além da Paralisia: Como o Corpo e a Mente Respondem ao Medo, Trauma e Ameaça

 



Além da Paralisia: Como o Corpo e a Mente Respondem ao Medo, Trauma e Ameaça



Em situações de ameaça intensa — física, emocional ou relacional — o corpo pode entrar em um estado de paralisia involuntária. Esse fenômeno não é “falta de força” ou fraqueza de caráter; ele é uma resposta neurobiológica de sobrevivência profundamente enraizada no sistema nervoso.

Quando todas as estratégias de defesa parecem se esgotar (luta, fuga, participação), surge um estado em que o corpo simplesmente congela. Isso está documentado em estudos sobre respostas automáticas de sobrevivência, incluindo reações que ocorrem no contexto de violência ou ameaça extrema — onde o organismo literalmente suspende o movimento até que a sensação de segurança interna retorne. 

Essa resposta não é “irreal” nem simbólica apenas; ela está corporificada. A perspectiva da cognição corporificada sugere que a mente não existe separada do corpo, mas está profundamente entrelaçada com ele — e nossa experiência emocional e cognitiva se dá justamente através desse corpo que sente. 

Na linguagem da Teoria Polivagal, o sistema nervoso reage a ameaças percebidas ativando fases diferentes de resposta:

• o vaso ventral, associado à presença segura e conexão;
• o simpático, associado à mobilização (luta/fuga);
• o vago dorsal, que pode levar ao congelamento ou paralisia.

Quando a sensação de perigo ultrapassa a capacidade do organismo de reagir com luta ou fuga, o sistema nervoso pode “desligar” temporariamente partes da experiência consciente — como uma tentativa extrema de proteção contra o impacto da ameaça.

Esse estado não é uma escolha, nem algo que simplesmente se supere pela vontade. Ele é uma resposta automática que já foi útil em contextos de perigo real e intenso.

É exatamente nesse ponto que a trauma informado (atenção fundamentada na neurobiologia do trauma) nos encontramos: entender que o corpo guarda essas respostas, e que elas não estão “muito longe” da mente — elas são linguagem somática do que ainda não foi integrado pela consciência.

Carl Jung falaria aqui de uma dissociação entre aquilo que se vivencia e aquilo que se percebe; Viktor Frankl diria que mesmo nas mais profundas limitações de resposta há um núcleo de sentido que pode ser encontrado; e Gabor Maté lembraria que essas respostas são adaptações — não falhas — de sobrevivência.

Do ponto de vista terapêutico, o que importa não é simplesmente “sair da paralisia”, mas entender, sentir com segurança e integrar a experiência inteira. Recuperar a presença no corpo, reconhecer as sensações ligadas à memória traumática, e criar um espaço interno seguro para que as respostas automáticas não dominem mais a vida da pessoa — isso faz parte de um processo consciente e amoroso de reintegração.

E assim nos aproximamos de algo fundamental:
o sofrimento inscrito no corpo não é um obstáculo ao sentido — ele pode ser um ponto de partida para a consciência.

Se este texto ressoa com você, talvez esteja no momento de olhar para as suas respostas automáticas não como algo estranho ou errado, mas como partes que pedem atenção e regulação — e não precisam ser atravessadas sozinhas.


Cida Medeiros

Psicoterapeuta Integrativa e Sistêmica — Clínica da Alma e da Consciência