O Tecelão da Vida: Entrelaçando Consciência, Corpo e Presença
A metáfora da tapeçaria — do tecido que se forma com fios variados — é uma imagem poderosa para pensar a vida. Somos, de certa forma, o tecelão e também o tecido: aquilo que escolhemos entrelaçar, aquilo que nos envolve, aquilo que vemos e aquilo que permanece oculto.
Porém, essa tapeçaria não é criada apenas pela vontade ou pelo pensamento. Ela nasce da interação contínua entre:
o corpo que sente,
o sistema nervoso que responde,
as emoções que ativam memórias,
os padrões antigos que se repetem,
a consciência que percebe.
Quando passamos por vivências intensas — perdas, traumas, vínculos feridos, medos que parecem sem origem — nosso sistema nervoso aprende a responder de formas que nem sempre favorecem presença ou escolha consciente. Ele responde com reações automáticas que foram úteis para a sobrevivência, mas que hoje podem nos manter presos ao velho padrão.
É como se metade dos fios que tentamos tecer estivesse embaraçada por nós mesmos, por respostas automáticas e por memórias inscritas no corpo.
A neurobiologia do trauma (como investigada por Bessel van der Kolk) nos lembra que essas memórias não estão “lá fora” na imaginação — elas estão literalmente inscritas no corpo, moldando a forma como reagimos, respiramos e sentimos. Stephen Porges, com a Teoria Polivagal, nos oferece um mapa do sistema nervoso para entender como os estados de segurança, luta/fuga ou colapso (“vago dorsal”) influenciam nossa capacidade de estar presentes no tecido da vida.
Carl Jung nos convida a considerar que esse processo de tecer não é apenas circunstancial — é uma jornada de individuação: o movimento interno que nos chama para integrar aquilo que antes estava dividido, esquecido, excluído ou repelido.
Nessa perspectiva, a vida não é apenas trama e urdidura —
é tecido e consciência.
E a consciência é aquilo que nos permite não apenas reagir à vida,
mas participar de sua criação.
Quando você se vê repetindo os mesmos padrões, sentindo-se puxada pelos fios antigos como se não tivesse escolha, esse é o momento em que a tapeçaria da vida mostra que algo ainda não foi integrado — que o sistema nervoso está operando em resposta automática, e não em presença.
E aqui está uma chave importante:
o tecelão mais relevante não é o passado…
é a sua atenção aqui e agora.
As escolhas conscientes não eliminam a dor nem cancelam a história.
O que elas fazem é mudar o modo de responder, reorganizar o padrão, oferecer direção ao tecido que está sendo criado.
Esse movimento não é simples — exige:
presença corporal
regulação emocional
atenção à respiração
consciência do sistema nervoso
leitura dos padrões relacionais
disposição para encarar o que foi evitado
Quando esses elementos se encontram, a tapeçaria da vida deixa de ser um amontoado de fios aparentemente aleatórios e se torna um tecido significativo — uma expressão integrada do que você percebe, sente e escolhe.
Se este texto ressoa com você, talvez esteja na hora de olhar para os fios que parecem sempre os mesmos — não como um destino imutável, mas como um convite para tecer com mais consciência.
Algumas travessias não precisam ser solitárias.
Cida Medeiros
Psicoterapeuta Integrativa e Sistêmica — Clínica da Alma e da Consciência



