Bem Vindo ao Blog Cida Medeiros! Caleidoscópio do Saber com Cida Medeiros: Quando a vida interrompe: aceitação, vulnerabilidade e reconstrução emocional

Quando a vida interrompe: aceitação, vulnerabilidade e reconstrução emocional



Há momentos em que a vida não pede reflexão.
Ela pede parada.

Não uma pausa escolhida, mas uma interrupção. Um tropeço. Uma queda. Um acontecimento que suspende o fluxo e nos devolve, de forma abrupta, ao corpo, ao presente e aos limites.

Esses momentos costumam chegar em períodos de transição: encerramentos de ciclos, mudanças de identidade, esvaziamentos necessários. Quando algo termina — uma etapa, uma relação, uma forma antiga de se sustentar —, o campo interno fica mais exposto. E é justamente aí que a vida, muitas vezes, intervém.

Do ponto de vista da psicologia profunda, não é incomum que, quando projeções começam a ser retiradas, fantasias desinfladas e imagens idealizadas confrontadas, o corpo participe desse processo. Jung já nos lembrava que aquilo que não é elaborado simbolicamente tende a se manifestar de outras formas.

Na linguagem da Terapia de Aceitação e Compromisso, esses momentos nos colocam frente a frente com aquilo que mais evitamos: a vulnerabilidade, a imprevisibilidade e a perda de controle.

Quando o corpo é ferido, ainda que temporariamente, não há negociação possível com a realidade. Não adianta compreender, racionalizar ou planejar demais. O convite é outro: aceitar os fatos como eles são e perguntar, com honestidade, o que é possível agora.

Aceitação, aqui, não é passividade.
É contato.

Contato com o corpo real — que dói, que se cansa, que precisa de tempo.
Contato com o presente — passo por passo, dia após dia.
Contato com a dependência — algo que a persona adulta, produtiva e autônoma costuma resistir em reconhecer.

Curiosamente, é nesses momentos que algo essencial se revela: o humano sustenta o humano.

Ajuda que vem de onde não se esperava. Presenças simples, gestos silenciosos, cuidados oferecidos sem espetáculo. O receber — tão negligenciado quanto o pedir — torna-se um aprendizado profundo.

Do ponto de vista sistêmico, aceitar ajuda é também aceitar pertencimento. É reconhecer que ninguém atravessa certas passagens sozinho, por mais recursos internos que tenha.

Esses períodos também nos colocam diante do luto: luto da imagem de controle, luto da fluidez perdida, luto do ritmo anterior. E todo luto pede tempo, gentileza e verdade.

Na ACT, dizemos que não escolhemos os eventos, mas podemos escolher a postura com que nos relacionamos com eles. Quando a luta contra a realidade cessa, algo se reorganiza. A energia antes gasta em resistir pode ser direcionada para cuidar, adaptar e atravessar.

Talvez o maior ensinamento desses momentos não seja sobre força, mas sobre humildade. Não a que diminui, mas a que alinha. A humildade de reconhecer limites. De respeitar o tempo do corpo. De aceitar que nem tudo se resolve com vontade ou saber.

Há travessias que não pedem pressa.
Pedem presença.

E, paradoxalmente, é quando aceitamos não saber, não controlar e não antecipar que algo novo começa a se formar — não como fantasia, mas como realidade possível.

Talvez o que esses momentos nos ensinem não seja como seguir adiante mais rápido, mas como estar onde estamos com mais verdade. Quando cessamos a luta contra o que aconteceu, algo se aquieta. O corpo encontra um novo ritmo, a mente aprende a acompanhar, e o coração — ainda sensível — começa a confiar outra vez. Nem sempre sabemos para onde a travessia nos levará, mas quando permanecemos presentes, passo a passo, ela deixa de ser apenas dor e passa a ser também aprendizado. E isso, por si só, já é um movimento de cura.

Cida Medeiros
Sou psicoterapeuta integrativa, com formação em Psicologia, e atuo de forma independente, integrando abordagens terapêuticas, sistêmicas e práticas de cuidado emocional.



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