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| "Um homem em seu outono, observando o horizonte onde o sol se põe. Uma imagem que evoca o silêncio da alma diante das perdas e a força da negação como um último refúgio de proteção. O que resta quando as paredes externas caem?" |
Onde Moram as Lembranças quando a Casa se Vai? O Desamparo e a Clínica da Alma
A vida, em sua crueza, não nos pede licença para manifestar suas tragédias. Recentemente, presenciei uma cena que me convocou não apenas como terapeuta, mas como cidadã e testemunha do tempo: um senhor de 84 anos, cercado pela autoridade policial e pelo olhar técnico da assistência social, vendo sua história ser resumida a pertences espalhados em uma calçada fria.
O que mais me tocou, no entanto, não foi apenas a imagem do despejo, mas o que ouvi nos bastidores daquele prédio. Em uma conversa paralela com um morador que acompanhou o processo, o relato era de uma tristeza profunda: "Nós tentamos avisar, Cida. Ele foi orientado por semanas, tentamos mostrar o que estava acontecendo, mas ele simplesmente relutava em aceitar. Parecia que ele não via ou não queria ver".
Esse relato muda tudo. Ele nos mostra que a negação não era falta de informação, mas uma barreira intransponível da psique. Ele seria encaminhado a um abrigo provisório via CREAS/CRAS e, ali, entre o som da sirene e o inventário burocrático, vi o choque entre o mundo interno — a resistência absoluta daquele homem — e o mundo real, representado pela necessidade de intervenção do Estado.
A Negação como Altar de Sobrevivência Biológica
Para um leitor leigo, a resistência desse senhor pode parecer teimosia ou "cabeça dura". No entanto, quando mergulhamos na Neuropsicologia Afetiva, compreendemos que o que testemunhamos foi um sistema nervoso tentando desesperadamente sobreviver a um colapso.
Aquele senhor não estava apenas "mentindo" para os vizinhos ou para si mesmo. Ele estava sob o domínio do que chamamos de Vago Dorsal, um estado de imobilização do sistema nervoso autônomo.
Quando a dor da humilhação e da perda excede a nossa capacidade de processamento emocional, o cérebro ativa um mecanismo de shutdown. É como se um disjuntor caísse para evitar que a fiação interna queime. Nesse estado, a negação funciona como uma anestesia psíquica. Aceitar o aviso dos moradores ou reconhecer aqueles móveis na calçada significaria aceitar a desintegração de sua própria identidade. Naquele instante, a negação era o seu último refúgio de dignidade.
O Amparo que a Família não Deu: Uma Visão Sistêmica
Sob o olhar da Visão Sistêmica, compreendemos que nenhum ser humano chega a esse estado de abandono por um evento isolado. Somos fios em uma imensa teia familiar. Quando os vínculos primários — aqueles que deveriam formar nossa "rede de segurança" — se rompem ou nunca se consolidaram, o indivíduo fica perigosamente "exposto" ao relento do mundo.
A história desse senhor, marcada pela ausência de contato com o filho e pelo isolamento dos netos, revela o que chamamos de transmissão transgeracional de traumas. O desamparo que ele vive hoje é o eco de abandonos e exclusões que ocorreram décadas atrás. Na ausência da rede familiar, o Estado intervém com sua "mão de ferro" (polícia e assistência social) para oferecer o mínimo de segurança física. Mas o Estado, por mais eficiente que seja, não consegue prover a segurança emocional que só o vínculo humano e o pertencimento oferecem.
A Clínica da Alma diante do Protocolo Institucional
Como uma Guardiã de Saberes, observo que existe um limite onde a palavra terapêutica silencia e a ação social assume. A intervenção do CRAS é vital para que ele tenha onde dormir e o que comer, mas o que acontece com o espírito de um homem quando ele perde o direito de habitar sua própria história?
A Fenomenologia nos convida a suspender o julgamento. Não importa se ele "deveria" ter pago o aluguel ou se "deveria" ter ouvido os vizinhos. O que importa é o fenômeno do ser humano ali, naquele momento, perdendo o chão. Quando o Estado recolhe seus pertences, está recolhendo os fragmentos de uma vida que ninguém mais quis carregar.
Reflexão Terapêutica: O Porto e a Tempestade
Imagine um velho navio que navegou por águas turbulentas durante oitenta e quatro anos. Suas âncoras foram cortadas uma a uma — pelos conflitos familiares, pelas mágoas não resolvidas, pelo tempo. Um dia, uma tempestade avassaladora o joga contra o cais de um porto desconhecido.
O cais é feito de concreto: é duro, frio e impessoal. O navio resiste ao impacto, tenta voltar para o mar revolto porque aquele porto não lhe é familiar. Ele não percebe que a dureza daquele concreto é a única coisa que o impede de naufragar definitivamente. O porto (as instituições) não tem o calor de um lar, mas é o amparo possível para quem já não consegue mais navegar sozinho.
O Papel da ACT: Aceitação não é Concordância
Muitas vezes, confundimos aceitação com passividade ou concordância. Na ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso), a aceitação é a disposição de abrir espaço para a experiência presente, por mais dolorosa que seja, para que possamos agir de acordo com nossos valores.
No entanto, como mencionei, no momento do trauma agudo, o ser humano não tem "flexibilidade psicológica". Ele está "travado". A aceitação, nesse contexto, não pode ser exigida; ela precisa ser construída com paciência. O trabalho terapêutico, em situações assim, não busca "mudar os fatos", mas ajudar o indivíduo a encontrar um pequeno solo firme dentro de si, onde ele possa, eventualmente, chorar o que foi perdido sem se desintegrar.
Por que Precisamos Olhar para Isso?
Escrevo este relato — e busco que ele chegue ao maior número de pessoas através da tecnologia — para que não olhemos para essas cenas como meros "casos de polícia". São vidas que clamam por humanidade. A minha presença ali, a tentativa de ajuda dos vizinhos e a sua leitura agora, servem para testemunhar que aquele homem existe e que sua dor tem um sentido.
O autoconhecimento e o cuidado com os vínculos não são luxos para quem tem tempo; são ferramentas de sobrevivência para a velhice. Trabalhamos nossas sombras hoje, buscamos a reconciliação com nossos filhos e pais agora, para que não tenhamos que enfrentar o inverno da vida em total deserto.
Que possamos honrar as instituições que acolhem o que a sociedade muitas vezes descarta, mas que nunca esqueçamos de cultivar a compaixão por aqueles que, em meio ao caos, só conseguem dizer: "isso não é meu".
Com verdade e profunda sobriedade,
Cida Medeiros
Terapeuta Integrativa e Caminhante Sistêmica
Notas de Rodapé e Referências Científicas (Para estudo profundo)
Teoria do Apego: BOWLBY, John. Uma Base Segura. Sobre como a falta de figuras de apego na velhice desregula o sistema de segurança.
Trauma e o Corpo: VAN DER KOLK, Bessel. O Corpo Guarda as Marcas. Explica o estado de desligamento (numbing) em situações de despejo e humilhação.
Teoria Polivagal: PORGES, Stephen. A biologia da segurança e a resposta de imobilização (Vago Dorsal).
ACT: HAYES, Steven C. Uma Mente Livre. Sobre a importância da flexibilidade psicológica e os riscos da evitação experiencial.
Fenomenologia: HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. O conceito de "ser-no-mundo" e o desamparo existencial.
Se esta história tocou você, talvez seja o momento de olhar para seus próprios vínculos. O autoconhecimento é a base para uma vida com pertencimento.
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