Bem Vindo ao Blog Cida Medeiros! Caleidoscópio do Saber com Cida Medeiros: Quando fazer o que é certo começa a nos afastar de nós mesmos

Quando fazer o que é certo começa a nos afastar de nós mesmos



Quando fazer o que é certo começa a nos afastar de nós mesmos

Há momentos em que sabemos.

Não sabemos explicar exatamente como sabemos.
Não fizemos contas. Não analisamos todas as possibilidades. Não consultamos ninguém.

Apenas sabemos.

Algo dentro de nós reconhece uma verdade antes mesmo que a mente consiga colocar palavras sobre ela.

Às vezes acontece diante de uma escolha.
Às vezes diante de uma pessoa.
Às vezes em uma conversa aparentemente banal, quando uma frase atravessa alguma coisa dentro de nós e, por um instante, enxergamos aquilo que antes permanecia escondido.

É curioso como esse reconhecimento pode ser tão breve.

Um instante de clareza.

E depois a mente chega.

Começamos a pensar no que deveríamos fazer.
No que esperam de nós.
No que seria mais adequado.
No que os outros vão pensar.
No que aprendemos que uma pessoa boa deveria fazer.

E aquela percepção inicial começa a perder espaço.

Talvez porque exista dentro de nós uma força muito antiga que deseja pertencer.

Desde cedo aprendemos, de muitas maneiras, que determinados comportamentos aproximam e outros afastam.

Há coisas que recebem aprovação.
Há coisas que provocam silêncio.
Há escolhas que fazem alguém sorrir.
E há escolhas que podem fazer alguém se afastar.

Assim, pouco a pouco, podemos aprender a confundir pertencimento com segurança.

E, sem perceber, passamos a perguntar menos:

“O que é verdadeiro para mim?”

e mais:

“O que preciso fazer para continuar sendo aceito?”

Essa diferença parece pequena.

Mas pode mudar uma vida inteira.

Porque, quando o desejo de pertencer se torna maior do que a nossa capacidade de escutar aquilo que sentimos profundamente, começamos a fazer acordos silenciosos conosco.

Dizemos “sim” quando queríamos dizer “não”.

Permanecemos onde já não estamos inteiros.

Defendemos situações que nos ferem.

Pedimos desculpas por existir de uma determinada maneira.

Escolhemos caminhos que não desejamos porque parecem ser os caminhos que manterão tudo em ordem.

E talvez o mais delicado seja que, muitas vezes, fazemos tudo isso acreditando estar fazendo o certo.

Não necessariamente porque alguém esteja nos obrigando.

Às vezes ninguém precisa obrigar.

Basta o medo.

O medo de decepcionar.
O medo de perder.
O medo de ser julgado.
O medo de deixar de ocupar aquele lugar que, durante tanto tempo, acreditamos precisar ocupar.

E então surge uma pergunta incômoda:

Será que tudo aquilo que sentimos como culpa realmente significa que fizemos algo errado?

Ou será que, algumas vezes, a culpa aparece simplesmente porque fizemos algo diferente daquilo que esperavam de nós?

Talvez existam culpas que nascem de uma transgressão.

Mas talvez existam outras que nascem apenas do movimento de nos diferenciarmos.

É possível que uma escolha seja profundamente verdadeira para nós e, ainda assim, provoque desconforto em alguém.

É possível amar alguém e não concordar com ele.

É possível honrar uma história sem precisar repeti-la.

É possível pertencer sem desaparecer.

E talvez amadurecer tenha algo a ver com isso:

aprender a permanecer em relação sem abandonar a própria interioridade.

Porque existe uma diferença entre ser fiel aos nossos vínculos e ser prisioneiro deles.

Uma diferença entre cuidar e carregar.

Entre respeitar e obedecer.

Entre amar e precisar ser aprovado.

Nem sempre aquilo que preserva a aparência de harmonia preserva aquilo que realmente importa.

Às vezes, uma família parece em paz porque ninguém fala sobre determinadas coisas.

Às vezes, uma relação parece estável porque uma das pessoas deixou de dizer o que sente.

Às vezes, uma pessoa parece “boa” porque aprendeu a colocar todos à sua frente.

Mas aquilo que foi silenciado não desapareceu.

Permanece em algum lugar.

No corpo.
No comportamento.
Nos relacionamentos.
Nas escolhas que repetimos.
Naquela sensação difícil de explicar de que estamos vivendo uma vida que, de algum modo, não parece inteiramente nossa.

Talvez por isso alguns momentos de transformação sejam tão desconfortáveis.

Quando começamos a nos escutar de verdade, podemos descobrir que determinadas certezas não eram exatamente nossas.

E isso pode ser assustador.

Porque rever aquilo que aprendemos significa, algumas vezes, olhar novamente para antigas lealdades, antigos medos e antigas formas de buscar amor.

Não para culpar quem veio antes.

Não para romper com tudo.

Mas para perguntar, com honestidade:

“O que, em mim, escolhe isso porque é verdadeiro — e o que escolhe isso apenas porque teme deixar de pertencer?”

Talvez essa pergunta abra uma porta.

Não necessariamente para uma resposta imediata.

Mas para um lugar mais profundo dentro de nós.

Um lugar onde a verdade não precisa gritar.

Ela apenas aparece.

Como uma pequena luz no meio daquilo que ainda não conseguimos compreender.

E talvez seja justamente aí que começa uma outra forma de liberdade:

quando já não precisamos escolher entre pertencer ao mundo e pertencer a nós mesmos.

Quando podemos olhar para nossa história com respeito, reconhecer de onde viemos, agradecer o que recebemos...

e, ainda assim, permitir que a nossa própria vida encontre o seu caminho.

Porque talvez amadurecer não seja deixar de pertencer.

Talvez seja descobrir quem somos quando já não precisamos nos abandonar para continuar pertencendo.

Quem você seria se não precisasse se abandonar para continuar pertencendo?

Cida Medeiros


Leia: Deixar de sofrer nos relacionamentos

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