O Ego, o Anjo e a Onda: A Jornada do Ser em Direção ao “Eu Sou”
Durante uma aula com minha professora Aidda, que estuda os ensinamentos de Alice Bailey, ouvimos algo que ecoa até hoje:
O ego precisa dar consentimento para que a qualidade essencial — o “Eu Sou” — manifeste seu poder.
Essa afirmação desloca completamente a ideia comum de espiritualidade. Não se trata de destruir o ego. Trata-se de autorização.
O Anjo da Guarda e o Eu Superior
Nos ensinamentos esotéricos, especialmente na tradição teosófica e nos escritos de Alice Bailey, o chamado “Anjo da Guarda” não é uma entidade externa no sentido religioso tradicional.
Ele é frequentemente compreendido como o Anjo Solar — uma consciência superior que vela pela evolução da alma.
É o aspecto mais elevado da nossa própria essência.
Quando o ego — estrutura organizadora da personalidade — relaxa seu controle e permite que o Eu essencial atue, algo acontece:
Somos potencializados energeticamente.
Não porque recebemos algo de fora.
Mas porque alinhamos o que somos com o que sempre fomos.
O Self como Partícula de Luz
Podemos compreender o Self como um fóton de partícula divina — uma metáfora que une linguagem espiritual e linguagem da física.
Na visão mística, somos centelhas de uma consciência maior.
Como diz o hermetismo:
“O que está em cima é como o que está embaixo.”
— Caibalion
Esse ensinamento deriva da tradição atribuída a Hermes Trismegisto e expressa o princípio da correspondência: o macrocosmo e o microcosmo refletem-se mutuamente.
Por isso, quando se diz que “somos todos partículas da mesma onda”, estamos ecoando uma compreensão universal presente em diversas tradições místicas: tudo vibra dentro de uma unidade maior.
A Onda Energética e os Reinos
Cada ser pertence a uma determinada onda energética.
Essa onda possui frequência, cor, ressonância, afinidades — simbolizadas por elementos como pedra, animal de poder, qualidade vibracional.
Essa onda não é apenas simbólica.
Ela representa o padrão energético que se manifesta através dos reinos da natureza.
Mineral.
Vegetal.
Animal.
Humano.
A manifestação humana seria o ponto onde diversas correntes energéticas colapsam em uma consciência individualizada.
É como se o Ser fosse o ponto de convergência de múltiplos campos.
O Campo Astral
Grande parte da humanidade mantém sua consciência predominantemente no chamado campo astral.
Na tradição teosófica, o plano astral é o plano das emoções, desejos e imagens psíquicas. É uma dimensão intermediária entre o físico e o mental superior.
Ele é menos denso que o plano físico, mas ainda está sujeito à dualidade e à polarização.
Manter consciência no campo astral significa viver majoritariamente identificado com emoções, desejos e reações.
O ego encontra ali seu território preferido.
Persona e Estrutura da Personalidade
Na psicologia analítica, Carl Gustav Jung define persona como:
“A persona é aquilo que alguém aparenta ser, mas que na realidade não é.”
(JUNG, O Eu e o Inconsciente)
A persona pertence ao campo mental inferior — estrutura organizada para existir socialmente.
Ela opera em conjunto com:
o corpo físico
o corpo etérico (campo energético vital)
o corpo emocional (astral)
o campo mental concreto
Tudo isso é organizado para esta existência.
O ego administra essa estrutura.
E o ego não quer morrer.
O Medo da Dissolução
O ego teme dissolução porque sua função é manter continuidade.
Segundo a visão reencarnacionista presente na teosofia, a consciência após a morte física torna-se menos densa.
Aquilo que foi purificado, aprendido e integrado é absorvido pelo chamado corpo causal.
O corpo causal, na tradição esotérica, é o veículo da alma — o repositório das experiências essenciais acumuladas ao longo das encarnações.
Ele não carrega traumas, mas essência.
O ego, entretanto, busca permanência.
Busca nova organização.
Busca nova encarnação.
Porque sua natureza é estrutural, não eterna.
Consentir é o Ato Espiritual
A verdadeira iniciação talvez não seja eliminar o ego, mas fazê-lo consentir.
Quando o ego autoriza a qualidade essencial — o “Eu Sou” — a se manifestar, ocorre uma reorganização energética.
A onda individual alinha-se com a onda universal.
E nesse alinhamento há potência.
Não é invocar algo externo.
É reconhecer que pertencemos à mesma frequência da qual tudo é feito.
Somos partículas da mesma onda.
O Que Está Dentro Está Fora
O ensinamento hermético da correspondência nos lembra que a transformação interna inevitavelmente se reflete externamente.
Se dentro há conflito, fora haverá conflito.
Se dentro há alinhamento, fora haverá coerência.
Ser terapeuta, dentro dessa visão, é viver essa correspondência.
Não é conduzir o outro a um lugar onde não estamos.
É sustentar o próprio processo de consentimento.
A Finalidade do “Eu Sou”
O “Eu Sou” não é um desejo do ego.
É a essência buscando expressão.
Aquilo que genuinamente gostamos e desejamos, quando livre de condicionamentos, é o que ressoa com nossa onda energética.
A finalidade do Ser não é competir.
É expressar sua qualidade essencial.
E talvez a responsabilidade maior não seja ensinar isso.
Seja viver isso.
Cida MedeirosReferências
BAILEY, Alice A. Tratado sobre Fogo Cósmico. São Paulo: Editora Pensamento, 2009.
BAILEY, Alice A. A Alma e seu Mecanismo. São Paulo: Editora Pensamento, 2001.
BLAVATSKY, Helena P. A Doutrina Secreta. São Paulo: Editora Pensamento, 2008.
JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2011.
JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014.
LEADBEATER, Charles W. O Plano Astral. São Paulo: Editora Pensamento, 2003.
SHELDRAKE, Rupert. Uma Nova Ciência da Vida. São Paulo: Cultrix, 2014.
TOLLE, Eckhart. O Poder do Agora. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.
TRÊS INICIADOS. O Caibalion. São Paulo: Editora Pensamento, 2007.
WILBER, Ken. O Espectro da Consciência. São Paulo: Cultrix, 1995.
Observações Conceituais
Campo Astral: desenvolvido na tradição teosófica por Blavatsky e aprofundado por Leadbeater.
Corpo Causal: descrito por Alice Bailey como o veículo da alma, onde se acumulam experiências essenciais.
Persona e Ego: fundamentados na psicologia analítica de Jung.
Princípio Hermético da Correspondência: “O que está em cima é como o que está embaixo” — atribuído à tradição de Hermes Trismegisto, sistematizado em O Caibalion.
Campo Mórfico: conceito biológico de Rupert Sheldrake.

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