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A Responsabilidade de Ser Terapeuta: Viver Como Canal do Self




Um caminho em direção ao Ser

A Responsabilidade de Ser Terapeuta: Viver Como Canal do Self

Ser terapeuta não é apenas uma profissão.
É uma escolha diária.
É um compromisso com o próprio Ser.

Durante minha formação na escola DEP, recebemos uma orientação que, à primeira vista, parece simples — mas carrega uma profundidade imensa: trabalhar cada um de nós para ser um canal do Self transpessoal.

E isso nos leva a uma pergunta essencial: o que é, de fato, o Self?

O Self e o Contato com o Ser

Na psicologia analítica, Carl Gustav Jung define o Self como a totalidade psíquica do indivíduo — aquilo que integra consciente e inconsciente. Ele afirma:

“O Self não é apenas o centro, mas também a circunferência total que abrange tanto o consciente quanto o inconsciente.”
(JUNG, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo)

Ser transpessoal, portanto, não é transcender a humanidade — é integrá-la.

Só é transpessoal quem vive em contato com esse centro organizador da própria psique. Não se trata de atuar espiritualmente, mas de viver alinhado internamente.

A Psicologia Além do Ego

A própria psicologia transpessoal surge quando se percebe que o ser humano não se resume ao ego. Abraham Maslow, ao estudar as experiências de pico, afirmou:

“O que aprendemos sobre pessoas autorrealizadas pode nos ensinar muito sobre as possibilidades mais elevadas da natureza humana.”
(MASLOW, Toward a Psychology of Being)

Maslow já apontava que existe uma dimensão do ser que vai além das necessidades básicas e da identidade condicionada.

Mais tarde, Stanislav Grof amplia essa compreensão ao dizer:

“A psique humana tem dimensões que ultrapassam o biográfico e se estendem ao transpessoal.”
(GROF, Além do Cérebro)

Ou seja, há camadas da experiência humana que nos conectam a algo maior que a narrativa pessoal.

E isso aumenta a responsabilidade do terapeuta.

O Campo Mórfico e a Repetição de Padrões

Quando afirmamos que escolhemos tudo o tempo todo, entramos em um território delicado: o dos padrões inconscientes.

O conceito de campo mórfico foi desenvolvido pelo biólogo Rupert Sheldrake. Segundo ele:

“Quanto mais frequentemente um padrão ocorre, mais provável se torna que ele volte a ocorrer.”
(SHELDRAKE, Uma Nova Ciência da Vida)

Ele propõe a ideia de campos de memória que influenciam formas e comportamentos. De maneira simplificada, o campo mórfico funciona como uma matriz invisível que reforça aquilo que já foi repetido.

Assim, nossos padrões emocionais e comportamentais tendem a se perpetuar.

Quebrar o campo mórfico é difícil porque ele nos oferece familiaridade.
E o familiar gera segurança.

Mas é justamente aqui que entra a responsabilidade do terapeuta: se não estamos atentos aos nossos próprios campos e repetições, podemos reforçá-los — e até transmiti-los.

Presença e Responsabilidade

A vivência do Ser exige presença. E presença exige consciência.

Eckhart Tolle escreve:

“A verdadeira transformação acontece quando você permite que o momento presente seja exatamente como é.”
(TOLLE, O Poder do Agora)

Ser terapeuta é sustentar essa presença — primeiro em si, depois com o outro.

Não podemos conduzir alguém além de onde nós mesmos estamos dispostos a ir.

A Jornada Contínua

O terapeuta não é aquele que já chegou.
É aquele que continua.

Como afirma Ken Wilber:

“Ninguém está totalmente desperto; todos estamos em processo.”
(WILBER, Uma Breve História de Tudo)

Ser canal do Self não é um estado permanente de iluminação.
É um compromisso constante com o próprio alinhamento.

É escolher romper padrões.
É sustentar o desconforto da mudança.
É permitir que o Ser se expresse.

Essa é a responsabilidade.

E talvez, também, a maior ética do terapeuta.

Cida Medeiros


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