A Única Tarefa do Ego: Escolher
Existe um equívoco comum no caminho espiritual: acreditar que o ego deve ser eliminado.
Mas talvez sua única tarefa não seja morrer.
Seja escolher.
O ego é a estrutura organizadora da personalidade. Ele não é o inimigo — é o instrumento. Quando colocado a serviço do Self, torna-se um mediador entre o invisível e o mundo concreto.
A questão não é destruir o ego.
É colocá-lo no seu lugar.
Ego a Serviço do Self
Na psicologia analítica, Carl Gustav Jung compreende o ego como o centro da consciência, enquanto o Self representa a totalidade psíquica.
O ego é parte.
O Self é totalidade.
Quando o ego se identifica como totalidade, surge o conflito.
Quando reconhece que é parte, surge alinhamento.
A maturidade espiritual não exige um ego fraco. Pelo contrário.
Exige um ego forte o suficiente para suportar transformação.
Graça e Coragem na Transformação
No livro Graça e Coragem, Ken Wilber narra o processo de adoecimento e morte de sua esposa, Treya Killam Wilber. A obra é um testemunho profundo sobre como crescimento espiritual não elimina dor — mas transforma a maneira como a atravessamos.
Wilber demonstra que a verdadeira integração espiritual exige duas qualidades:
Graça para aceitar o que é
Coragem para atravessar o que precisa ser transformado
Transformação é possível em qualquer campo de manifestação — físico, emocional, mental ou espiritual. Mas ela exige estrutura interna.
Sem ego estruturado, não há sustentação para expansão de consciência.
Livre-Arbítrio e Apropriação das Crenças
O livre-arbítrio não é simplesmente “poder escolher”.
Ele acontece quando eu me aproprio das minhas crenças.
Enquanto ajo inconscientemente a partir de padrões herdados, não estou escolhendo — estou reagindo.
O livre-arbítrio emerge quando tomo consciência do que acredito e, a partir daí, decido.
Essa visão dialoga com a psicologia do desenvolvimento moral e espiritual descrita por Wilber, na qual níveis mais elevados de consciência ampliam a capacidade de escolha.
Escolher exige consciência.
E consciência exige responsabilidade.
O Canal do Consciente Emergente
Existe algo em nós que está sempre emergindo.
Uma inteligência mais ampla.
Um impulso evolutivo.
Wilber chama isso de impulso eros — a tendência do universo à complexidade e à integração.
Alinhar-se com o canal do consciente emergente é permitir que essa força atue.
Mas isso só acontece quando o ego consente.
Quando ele deixa de resistir.
Quando para de tentar controlar o fluxo.
Sensações Primárias e Memória Corporal
Muitas vezes, quando entramos em contato com determinadas sensações corporais, somos inundados por desconfortos intensos que parecem desproporcionais ao momento presente.
Isso pode ocorrer porque o corpo registra experiências precoces.
O psiquiatra Bessel van der Kolk, em O Corpo Guarda as Marcas, afirma:
“O corpo mantém a pontuação da experiência.”
Experiências precoces — especialmente aquelas vividas na infância — podem ser registradas como sensações primárias desagradáveis antes mesmo de haver linguagem para processá-las.
Entrar em contato com certas sensações pode ativar registros implícitos da criança interior.
Por isso o ego precisa ser forte.
Não para evitar sentir.
Mas para suportar sentir sem fragmentar-se.
Persona e Estrutura da Existência
Jung também descreve a persona como a máscara social necessária para navegar no mundo.
Ela pertence ao campo mental estruturado para esta existência.
Nosso corpo físico, etérico, emocional e mental formam o conjunto organizacional da encarnação.
O ego administra esse sistema.
E ele teme dissolução.
Transmutação e Evolução Coletiva
Na visão espiritual integrativa, não evoluímos isoladamente.
Há uma interdependência entre consciência individual e campo coletivo.
A ideia de que “não sairemos deste planeta enquanto todas as partículas não forem transmutadas” ecoa o princípio de interconexão presente tanto no hermetismo quanto nas tradições místicas orientais.
O princípio hermético da correspondência — descrito em O Caibalion — afirma:
“O que está em cima é como o que está embaixo.”
Se somos parte de uma totalidade vibracional, nossa evolução individual participa de um processo maior.
Não transcendemos sozinhos.
Transmutamos juntos.
A Escolha Certa
A única tarefa do ego é escolher a favor do alinhamento.
Escolher servir ao Self.
Escolher sustentar a transformação.
Escolher atravessar sensações antigas sem se identificar com elas.
Escolher crescer.
Quando o ego cumpre sua função, ele não desaparece.
Ele se torna ponte.
E talvez seja isso maturidade espiritual:
Um ego forte o suficiente para ajoelhar-se diante do Self.
Referências
JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2011.
VAN DER KOLK, Bessel. O Corpo Guarda as Marcas. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.
WILBER, Ken. Graça e Coragem. São Paulo: Cultrix, 1991.
WILBER, Ken. Uma Teoria de Tudo. São Paulo: Cultrix, 2000.
TRÊS INICIADOS. O Caibalion. São Paulo: Editora Pensamento, 2007.
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