Bem Vindo ao Blog Cida Medeiros! Caleidoscópio do Saber com Cida Medeiros: Quando a solidão muda a maneira como confiamos: o cérebro, o trauma e o medo do encontro

Quando a solidão muda a maneira como confiamos: o cérebro, o trauma e o medo do encontro

 

Ilustração digital suave e minimalista de duas figuras humanas silhuetadas, uma de frente para a outra, separadas por um espaço com pequenas partículas de luz flutuando entre elas, sugerindo tentativa de conexão.

Quando a solidão muda a maneira como confiamos: o cérebro, o trauma e o medo do encontro

Vivemos cercados de possibilidades de conexão. Podemos enviar uma mensagem em segundos, acompanhar a vida de centenas de pessoas, participar de grupos, conversar com uma inteligência artificial e encontrar alguém do outro lado da tela a qualquer momento.

Mas talvez exista uma pergunta mais silenciosa por trás de tudo isso: estar conectado significa, necessariamente, estar em relação?

A pergunta ganha outra dimensão quando olhamos para a solidão, para as experiências traumáticas e para a forma como aprendemos a confiar. Porque confiar não é apenas uma decisão racional. É também algo que se aprende na experiência.

(Um aviso importante antes de seguir: as pesquisas citadas ao longo deste texto mostram associações e hipóteses, em diferentes graus de evidência — não provam que uma coisa causa a outra de forma simples e direta.)


A solidão não é simplesmente estar sozinho

Isolamento social é uma condição objetiva: ter poucas relações, contatos ou papéis sociais. Solidão, por sua vez, é subjetiva. A Organização Mundial da Saúde a define como o sofrimento decorrente da diferença entre as conexões sociais que uma pessoa tem e aquelas que gostaria ou considera necessárias.

Isso significa que uma pessoa pode estar sozinha e não se sentir solitária — e pode estar cercada de gente e experimentar uma profunda sensação de desconexão. A questão não é quantas pessoas existem ao nosso redor, mas como experimentamos nossas relações.

A OMS trata hoje a conexão social como uma questão de saúde pública: seu relatório global estima que cerca de uma em cada seis pessoas no mundo seja afetada pela solidão, com associações relevantes com saúde mental, saúde física, aprendizagem, trabalho e longevidade.


E se a solidão também mudar a nossa relação com a confiança?

Uma pesquisa publicada em 2026 na iScience, da Universidade de Viena, estudou como adultos mais jovens e mais velhos aprendiam a confiar em pessoas confiáveis ou não confiáveis ao longo de interações repetidas. Os participantes mais velhos apresentaram menor confiança inicial e menor aprendizagem da confiança, com diferenças também na atividade da amígdala e em mecanismos dopaminérgicos. Entre eles, níveis maiores de solidão estiveram associados a alterações nesse processo.

Isso abre uma pergunta enorme: como aprendemos que o outro é confiável?

Talvez não confiemos porque alguém nos garantiu que devemos. Aprendemos confiando. Observando. Testando. Sendo surpreendidos. Percebendo que alguém cumpriu o que disse. Descobrindo que um conflito não significa necessariamente abandono. Experimentando que podemos dizer "não" e ainda assim permanecer em uma relação. É assim que uma expectativa sobre o outro vai sendo construída.


O trauma pode complicar esse aprendizado

Experiências adversas na infância não são apenas acontecimentos que ficaram no passado — elas podem participar da maneira como a pessoa passa a interpretar o mundo social e a responder a ele.

Uma revisão de 2026 publicada na Clinical Psychology Review examinou 78 estudos sobre adversidade interpessoal na infância e quatro mecanismos possíveis em seus efeitos sobre a saúde mental: confiança, mentalização, agência e regulação emocional interpessoal. No eixo da confiança, os autores encontraram associações entre adversidades vividas na infância e maior desconfiança, ligada por sua vez a diferentes dificuldades de saúde mental — ressalvando limitações importantes na literatura, como o predomínio de estudos transversais e baseados em autorrelato.

Essa pesquisa sugere uma mudança de perspectiva: talvez, em determinadas histórias de vida, o problema não seja simplesmente "eu não quero me relacionar", mas algo mais próximo de "meu organismo aprendeu que se aproximar pode ser perigoso." E isso é diferente.


Quando a distância parece mais segura que a intimidade

Imagine alguém que viveu relações marcadas por imprevisibilidade, rejeição, abandono ou negligência. Essa pessoa pode aprender, explícita ou implicitamente, que depender do outro é arriscado, que mostrar necessidade pode trazer rejeição, que é melhor antecipar a decepção do que ser surpreendida por ela.

Nem sempre isso aparece como um pensamento consciente. Pode aparecer como um modo de estar: desejar intimidade e, ao mesmo tempo, temê-la; querer proximidade e recuar quando ela chega; sentir solidão e, ainda assim, achar exaustivo estabelecer uma relação mais profunda. É por isso que a palavra ambivalência é tão importante quando falamos de vínculos.


O cérebro aprende com aquilo que vivemos

Uma revisão publicada em agosto de 2026 na Nature Reviews Neuroscience reuniu evidências de estudos humanos e animais mostrando que experiências de estresse na vida inicial podem influenciar o desenvolvimento cerebral por mecanismos epigenômicos, a maturação dos circuitos neurais e a vulnerabilidade posterior a transtornos psiquiátricos — efeitos que dependem do tipo de experiência, da região cerebral, do tipo celular e do momento do desenvolvimento.

Isso nos ajuda a abandonar duas ideias igualmente inadequadas: que "o trauma fica para sempre e não há o que fazer", e que "basta pensar positivo que o cérebro muda". O cérebro é plástico, mas plástico não significa infinitamente maleável. Experiências deixam marcas — e novas experiências também podem participar da construção de novos padrões.


Confiança não nasce da certeza

Talvez esta seja a parte mais bonita dessa reflexão. Não aprendemos a confiar porque descobrimos que o outro é perfeito. Aprendemos a confiar porque experimentamos, pouco a pouco, que uma relação pode sobreviver à imperfeição.

Alguém falha, depois repara. Alguém não compreende, depois escuta. Alguém coloca um limite — e ainda assim permanece. É assim que o vínculo pode se tornar um lugar de segurança. Não porque nunca dói. Mas porque descobrimos que nem toda dor significa abandono.

Mas essa forma de aprender a confiar — ou de aprender a temer — encontrou, nos últimos anos, um território novo: as telas. É sobre isso que vamos falar na próxima reflexão.


Cida Medeiros 

Psicoterapeuta Sistêmica e Integrativa

Clínica da Alma e da Consciência

Este artigo é uma reflexão interdisciplinar baseada em pesquisas contemporâneas sobre solidão, confiança, adversidade na infância e vínculos. Os estudos citados apresentam associações e hipóteses em diferentes graus de evidência; eles não permitem concluir que essas experiências causem, por si só, dificuldades relacionais.



Palavras-chave: solidão e confiança; trauma e vínculos; trauma e apego; neurociência da solidão; medo de relacionamentos; saúde mental e vínculos.

Leia também: IA, vínculos, solidão, trauma e apego.


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