Quem está no comando? Como o corpo e o trauma influenciam suas decisões
Há uma ideia confortável sobre nossas escolhas: imaginamos que primeiro pensamos, depois decidimos e, finalmente, agimos.
Mas será que acontece exatamente assim?
Antes de uma decisão consciente, nosso corpo já está em determinado estado. Nossa respiração está mais rápida ou mais lenta. O coração responde ao ambiente. O sistema nervoso interpreta sinais de segurança ou ameaça. Nossas experiências anteriores influenciam expectativas. Nossos hábitos automatizam comportamentos.
Então surge uma pergunta que pode ser desconfortável:
quanto daquilo que chamamos de escolha é realmente escolha?
O que a neurociência diz sobre respiração e decisão
Uma pesquisa publicada recentemente na Neuron investigou o efeito da respiração lenta com expiração prolongada sobre a tomada de decisões arriscadas.
Os participantes realizaram tarefas de decisão enquanto seguiam diferentes padrões respiratórios. A expiração prolongada aumentou marcadores de atividade parassimpática e esteve associada a maior sensibilidade cerebral às recompensas, além de um aumento nas escolhas consideradas arriscadas pelos pesquisadores.
Isso é importante porque desmonta uma imagem simplista de que respirar profundamente significa apenas "ficar calmo".
O que a pesquisa sugere é mais interessante:
alterar o estado fisiológico pode alterar a maneira como avaliamos aquilo que está diante de nós.
O corpo não está simplesmente acompanhando o pensamento.
Ele participa do processo.
Outro estudo recente, publicado em Communications Biology, encontrou evidências de que estados cardíacos defensivos — associados a uma resposta de congelamento diante de ameaça — modificam a representação neural de ameaça e recompensa durante decisões de aproximação e evitação. Essas informações neurais chegaram a predizer escolhas alguns segundos antes da resposta comportamental.
Não significa que nosso corpo "decida tudo por nós".
Mas significa que a decisão consciente acontece dentro de um organismo que já está respondendo.
E se o nosso passado também estiver participando?
É aqui que o tema do trauma entra.
Uma experiência não precisa permanecer na memória como uma lembrança claramente acessível para continuar influenciando a maneira como respondemos à vida.
Experiências adversas podem contribuir para padrões de vigilância, defesa, expectativa e relacionamento.
Uma pessoa que aprendeu, em algum momento da vida, que proximidade significava perigo pode reagir de maneira diferente diante de uma aproximação.
Outra, que associou abandono à intimidade, pode perceber distância onde outra pessoa perceberia apenas necessidade de espaço.
Outra pode aprender a controlar antes de confiar.
Outra pode evitar conflitos a qualquer custo.
E há ainda quem desenvolva uma forma de proteção aparentemente contraditória: deseja profundamente conexão, mas recua justamente quando ela se torna possível.
Não precisamos dizer que o trauma determina essas respostas.
Seria um novo determinismo.
O que podemos dizer é que experiências anteriores participam da maneira como o organismo aprende a antecipar o que poderá acontecer depois.
Entre o estímulo e a resposta existe um espaço
Talvez a palavra mais importante aqui seja consciência.
Não porque consciência nos transforme em seres completamente livres de condicionamentos.
Mas porque ela pode ampliar o espaço entre o que acontece conosco e aquilo que fazemos com o que acontece.
Perceber:
"Meu coração acelerou."
"Estou interpretando isso como ameaça."
"Estou com vontade de fugir."
"Essa situação me lembra algo."
"Estou tentando controlar porque estou insegura."
"Estou desejando uma recompensa imediata."
Esse pequeno intervalo pode mudar tudo.
Não elimina a reação.
Mas pode criar possibilidade de resposta.
Para refletir
Vivemos num corpo que sente antes de entender, que carrega uma história que nem sempre lembramos conscientemente, e que ainda assim segue tentando escolher.
Isso não nos torna reféns do passado.
Mas nos convida a olhar com mais honestidade para aquilo que nos influencia antes mesmo de pensarmos que estamos decidindo.
Entre o impulso e a ação existe um intervalo.
É nesse intervalo que a consciência pode começar a aparecer.
Mas existe hoje um novo participante nessa equação — um que não faz parte do nosso corpo nem da nossa história, mas que já influencia boa parte do que vemos, desejamos e decidimos todos os dias. É sobre ele que vou falar na próxima postagem.
Leia também: Desmistificando a dissociação

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