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| Ilustração de pessoa em estado de presença serena, representando a superação da hipervigilância e o retorno ao momento presente |
Não leu a primeira parte desta reflexão, sobre a biologia do imprevisível no trauma? [Confira aqui].
Na postagem anterior, vimos que o problema do trauma não é apenas o perigo em si — é a imprevisibilidade do perigo. Uma pesquisa recente mostrou que, em pessoas com sintomas mais graves de TEPT, a ameaça imprevisível está associada a mais ansiedade e a dificuldades na formação de memórias. O corpo aprende a permanecer preparado, e essa preparação pode ocupar um espaço que antes pertencia à experiência presente.
Mas se o corpo aprendeu isso, o que é possível fazer com essa aprendizagem?
Presença não é ausência de incerteza
Existe uma ideia muito difundida de que estar presente significa sentir-se completamente seguro.
Mas talvez não seja isso.
A vida nunca oferece segurança absoluta.
Não sabemos o que acontecerá daqui a uma hora.
Não sabemos como uma conversa terminará.
Não sabemos se uma relação permanecerá.
Não sabemos exatamente o que acontecerá com nosso corpo, nosso trabalho, nossos projetos ou nosso futuro.
A presença, portanto, não pode depender da eliminação da incerteza.
Talvez presença seja outra coisa:
a capacidade de permanecer em contato com o que está acontecendo agora sem precisar transformar imediatamente a incerteza em perigo.
Essa distinção é preciosa.
Porque recuperar a presença não significa convencer o organismo de que nada ruim jamais acontecerá.
Significa ampliar, gradualmente, a capacidade de perceber:
"Neste momento, isto é o que está acontecendo."
E não apenas:
"Isto é o que pode acontecer."
O cérebro, o corpo e a expectativa
É justamente aqui que pesquisas sobre expectativa, placebo e nocebo se tornam interessantes.
A neurociência contemporânea demonstra que expectativas e contexto podem modificar a experiência e algumas respostas fisiológicas. No campo da dor, por exemplo, estudos de neuroimagem e revisões mostram que expectativas, aprendizagem e contexto terapêutico podem envolver circuitos cerebrais relacionados à regulação da dor e sistemas moduladores descendentes.
Isso não significa que:
"pensar positivo cura tudo."
Essa seria uma conclusão indevida.
Significa algo mais interessante e mais complexo:
a maneira como o cérebro interpreta uma experiência participa da própria experiência corporal.
O corpo não é separado da mente.
E a mente não é apenas um espectador do corpo.
Existe uma conversa permanente entre percepção, expectativa, memória, emoção, cérebro e organismo.
Ciência, expectativa e os limites de uma linguagem popular
Existe hoje uma linguagem bastante popular que aproxima meditação, mudança de estado, expectativa, neuroplasticidade, corpo e transformação pessoal. Parte dessa linguagem encontra pontos de contato com linhas legítimas da pesquisa contemporânea sobre meditação e expectativa.
Alguns estudos, por exemplo, investigaram mudanças em padrões de EEG após intervenções breves de meditação em grupos de iniciantes. Outros investigaram alterações neurais e moleculares após retiros que combinavam meditação, reconceitualização e práticas de placebo aberto, incluindo medidas de conectividade cerebral e marcadores biológicos — embora seja importante registrar que esse tipo de estudo costuma ser observacional, o que limita as conclusões causais que se pode tirar dele.
A ciência também possui hoje uma literatura bastante desenvolvida sobre placebo e nocebo, mostrando que expectativas, aprendizagem e contexto podem produzir efeitos mensuráveis na experiência e em mecanismos neurobiológicos.
Mas é importante fazer uma distinção.
Isso não significa que a ciência tenha comprovado todas as afirmações associadas a ideias populares de "campo quântico" aplicadas à mente humana. A física quântica e suas descrições matemáticas não constituem, por si mesmas, uma demonstração de que pensamentos humanos criam diretamente acontecimentos macroscópicos ou uma realidade pessoal.
Essa fronteira entre evidência, interpretação e hipótese é importante. E talvez seja justamente aí que uma conversa madura entre ciência e espiritualidade possa começar.
O que muda quando compreendemos o trauma dessa maneira?
Talvez mude a pergunta.
Em vez de perguntar:
"Por que essa pessoa não consegue relaxar?"
podemos perguntar:
"O que o organismo dela aprendeu que precisava prever?"
Em vez de:
"Por que ela pensa tanto no que pode dar errado?"
podemos perguntar:
"Que função essa antecipação teve em algum momento da sua história?"
E, em vez de tentar simplesmente eliminar a vigilância, podemos começar a construir outra experiência:
perceber → reconhecer → regular → diferenciar → escolher.
Perceber o que está acontecendo.
Reconhecer a resposta automática.
Regular o organismo.
Diferenciar passado e presente.
E então recuperar algum espaço para escolher.
Entre a memória do perigo e o perigo presente
Talvez uma das tarefas mais delicadas do processo terapêutico seja justamente essa:
ajudar a pessoa a reconhecer a diferença entre aquilo que está acontecendo agora e aquilo que seu organismo aprendeu a esperar.
Não para invalidar sua história.
Não para dizer que "é tudo imaginação".
Muito menos para exigir que ela confie cegamente no mundo.
Mas para criar uma possibilidade nova:
o passado pode continuar fazendo parte da história sem precisar ocupar todo o presente.
Essa talvez seja uma das dimensões mais profundas da regulação.
Não é produzir um estado permanente de calma.
É aumentar a capacidade de permanecer consigo mesma diante daquilo que ainda não sabe.
Talvez seja isso que o imprevisível nos ensina
Não podemos eliminar completamente a incerteza.
Podemos, entretanto, desenvolver uma relação diferente com ela.
Há uma diferença entre:
"Não sei o que vai acontecer, portanto preciso estar em alerta."
e:
"Não sei o que vai acontecer, e posso permanecer presente enquanto descubro."
Entre essas duas frases existe um enorme território de transformação.
É o espaço entre reação e escolha.
Entre antecipação e presença.
Entre memória e experiência atual.
Entre o organismo que aprendeu a sobreviver e a pessoa que, pouco a pouco, pode reaprender a viver.
Para além do controle
Talvez maturidade não seja finalmente chegar a um lugar onde nada mais nos assusta.
Talvez seja desenvolver recursos internos suficientes para não precisar conhecer o final de uma história antes de conseguir permanecer dentro dela.
O imprevisível continuará existindo.
A pergunta talvez seja outra:
quanto de presença conseguimos sustentar diante daquilo que ainda não sabemos?
E talvez seja justamente aí que neurociência, psicologia, fenomenologia, práticas contemplativas e uma espiritualidade madura possam conversar.
Não para provar umas às outras.
Mas para fazer perguntas melhores sobre uma experiência que todas, por caminhos diferentes, tentam compreender:
o que acontece quando um ser humano aprende a habitar novamente o próprio presente?
Leia também:
Quem está no comando? Como o corpo e o trauma influenciam suas decisões
Quando fazer o que é certo começa a nos afastar de nós mesmos
Palavras-chave: presença e ansiedade; como lidar com a incerteza; regulação emocional; trauma e presença; placebo e expectativa; flexibilidade psicológica.
Cida Medeiros

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