O Labirinto das Projeções e o Despertar da Alma
Houve um tempo em que ela acreditava que amar era encontrar o espelho perfeito. Alguém que refletisse, sem distorções, os anseios que ela carregava no peito. No início, a paixão parecia um sol de meio-dia: ofuscante, absoluta e carregada de promessas. Mas, como ensina a psicologia profunda, onde a luz é mais forte, a Sombra é mais densa.
Com o tempo, o brilho daquele outro rosto começou a oscilar. Ela percebeu que não estava olhando para um homem, mas para um Arquétipo. Ela havia vestido o outro com o manto do seu próprio Animus, conferindo a ele o poder divino de completá-la. E, nesse teatro psíquico, o outro desapareceu sob o peso da sua expectativa.
O Complexo e o Emaranhamento
Ao mergulhar em suas próprias águas, ela descobriu que seus passos não eram tão livres quanto imaginava. Havia fios invisíveis que a ligavam ao seu Sistema de Origem. Ela percebeu que, muitas vezes, não era ela quem buscava o amor, mas a criança ferida de sua árvore genealógica, tentando repetir ou reparar dores de gerações anteriores.
O relacionamento, então, revelou-se seu maior mestre. Não era um porto seguro, mas um mar revolto que a obrigava a remar. Ela compreendeu que muitos dos seus conflitos eram complexos ativados: feridas antigas que, como gatilhos, disparavam reações automáticas, heranças de um passado sistêmico que ela ainda não havia "desemaranhado".
O Equilíbrio: Quando dois se tornam um, sem deixar de ser dois
A pergunta que ecoava em seu silêncio era: quando estamos prontos?
A resposta veio através da Alquimia. Duas pessoas só estão preparadas para o equilíbrio quando o vaso de cada uma está íntegro. Enquanto buscamos no outro o oxigênio para nossa asfixia emocional, o que criamos é simbiose, não amor.
O equilíbrio surge quando:
A Projeção é Retirada: Você para de exigir que o outro seja o curador das suas dores.
O Sistema é Honrado, mas Deixado: Você reconhece sua ancestralidade, mas dá um passo à frente, deixando de ser o "bode expiatório" ou o "salvador" da sua linhagem para ser apenas você.
A Sombra é Integrada: Você aceita que o outro também tem escuridão, e que o amor real acontece no cinza da humanidade, não no branco da perfeição.
Ao olhar para a foto dele agora, ela não vê mais um deus, nem um vilão. Vê um par. Um outro ser humano que, assim como ela, carrega suas próprias bagagens. E, nesse deserto de ilusões, ela finalmente encontrou o solo fértil da realidade.
E você?
Ao ler essa jornada, olhe para as suas relações. O que você vê no outro é a essência dele ou um fragmento da sua própria história? Você caminha com suas próprias pernas ou está emaranhado em lealdades invisíveis ao seu sistema de origem?
O amor maduro não é um encontro de metades, mas a celebração de dois inteiros que decidem, conscientemente, compartilhar o caminho.
Inspirado nas obras:
O Mapa da Alma – Murray Stein (Introdução à Psicologia Junguiana).
A Prática da Psicoterapia – C.G. Jung (Sobre a Transferência e Projeção).
O Eu e o Inconsciente – C.G. Jung (Individuação e Animus).
A Ordem do Amor – Bert Hellinger (Visão Sistêmica e Emaranhamentos).
Caleidoscópio do Saber e Olhares que Curam e Olhares que Adoecem.

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