Bem Vindo ao Blog Cida Medeiros! Caleidoscópio do Saber com Cida Medeiros: fevereiro 1998

A Única Tarefa do Ego: Escolher

 


A Única Tarefa do Ego: Escolher

Existe um equívoco comum no caminho espiritual: acreditar que o ego deve ser eliminado.

Mas talvez sua única tarefa não seja morrer.

Seja escolher.

O ego é a estrutura organizadora da personalidade. Ele não é o inimigo — é o instrumento. Quando colocado a serviço do Self, torna-se um mediador entre o invisível e o mundo concreto.

A questão não é destruir o ego.
É colocá-lo no seu lugar.

Ego a Serviço do Self

Na psicologia analítica, Carl Gustav Jung compreende o ego como o centro da consciência, enquanto o Self representa a totalidade psíquica.

O ego é parte.
O Self é totalidade.

Quando o ego se identifica como totalidade, surge o conflito.
Quando reconhece que é parte, surge alinhamento.

A maturidade espiritual não exige um ego fraco. Pelo contrário.

Exige um ego forte o suficiente para suportar transformação.

Graça e Coragem na Transformação

No livro Graça e Coragem, Ken Wilber narra o processo de adoecimento e morte de sua esposa, Treya Killam Wilber. A obra é um testemunho profundo sobre como crescimento espiritual não elimina dor — mas transforma a maneira como a atravessamos.

Wilber demonstra que a verdadeira integração espiritual exige duas qualidades:

  • Graça para aceitar o que é

  • Coragem para atravessar o que precisa ser transformado

Transformação é possível em qualquer campo de manifestação — físico, emocional, mental ou espiritual. Mas ela exige estrutura interna.

Sem ego estruturado, não há sustentação para expansão de consciência.

Livre-Arbítrio e Apropriação das Crenças

O livre-arbítrio não é simplesmente “poder escolher”.

Ele acontece quando eu me aproprio das minhas crenças.

Enquanto ajo inconscientemente a partir de padrões herdados, não estou escolhendo — estou reagindo.

O livre-arbítrio emerge quando tomo consciência do que acredito e, a partir daí, decido.

Essa visão dialoga com a psicologia do desenvolvimento moral e espiritual descrita por Wilber, na qual níveis mais elevados de consciência ampliam a capacidade de escolha.

Escolher exige consciência.

E consciência exige responsabilidade.

O Canal do Consciente Emergente

Existe algo em nós que está sempre emergindo.

Uma inteligência mais ampla.
Um impulso evolutivo.

Wilber chama isso de impulso eros — a tendência do universo à complexidade e à integração.

Alinhar-se com o canal do consciente emergente é permitir que essa força atue.

Mas isso só acontece quando o ego consente.

Quando ele deixa de resistir.

Quando para de tentar controlar o fluxo.

Sensações Primárias e Memória Corporal

Muitas vezes, quando entramos em contato com determinadas sensações corporais, somos inundados por desconfortos intensos que parecem desproporcionais ao momento presente.

Isso pode ocorrer porque o corpo registra experiências precoces.

O psiquiatra Bessel van der Kolk, em O Corpo Guarda as Marcas, afirma:

“O corpo mantém a pontuação da experiência.”

Experiências precoces — especialmente aquelas vividas na infância — podem ser registradas como sensações primárias desagradáveis antes mesmo de haver linguagem para processá-las.

Entrar em contato com certas sensações pode ativar registros implícitos da criança interior.

Por isso o ego precisa ser forte.

Não para evitar sentir.
Mas para suportar sentir sem fragmentar-se.

Persona e Estrutura da Existência

Jung também descreve a persona como a máscara social necessária para navegar no mundo.

Ela pertence ao campo mental estruturado para esta existência.

Nosso corpo físico, etérico, emocional e mental formam o conjunto organizacional da encarnação.

O ego administra esse sistema.

E ele teme dissolução.

Transmutação e Evolução Coletiva

Na visão espiritual integrativa, não evoluímos isoladamente.

Há uma interdependência entre consciência individual e campo coletivo.

A ideia de que “não sairemos deste planeta enquanto todas as partículas não forem transmutadas” ecoa o princípio de interconexão presente tanto no hermetismo quanto nas tradições místicas orientais.

O princípio hermético da correspondência — descrito em O Caibalion — afirma:

“O que está em cima é como o que está embaixo.”

Se somos parte de uma totalidade vibracional, nossa evolução individual participa de um processo maior.

Não transcendemos sozinhos.

Transmutamos juntos.

A Escolha Certa

A única tarefa do ego é escolher a favor do alinhamento.

Escolher servir ao Self.

Escolher sustentar a transformação.

Escolher atravessar sensações antigas sem se identificar com elas.

Escolher crescer.

Quando o ego cumpre sua função, ele não desaparece.

Ele se torna ponte.

E talvez seja isso maturidade espiritual:

Um ego forte o suficiente para ajoelhar-se diante do Self.


Referências

JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2011.

VAN DER KOLK, Bessel. O Corpo Guarda as Marcas. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

WILBER, Ken. Graça e Coragem. São Paulo: Cultrix, 1991.

WILBER, Ken. Uma Teoria de Tudo. São Paulo: Cultrix, 2000.

TRÊS INICIADOS. O Caibalion. São Paulo: Editora Pensamento, 2007.