Feridas com a mãe e com o pai: como esses traumas moldam o Self e o caminho da individuação
Ao longo da vida, muitas dores não chegam até nós como lembranças claras.
Elas aparecem como padrões.
Como escolhas repetidas.
Como relações que machucam do mesmo jeito, mesmo com pessoas diferentes.
Na Psicologia Analítica, Carl Gustav Jung nos ajuda a compreender que boa parte dessas marcas nasce nas primeiras relações — especialmente com a mãe e com o pai. Não apenas como pessoas reais, mas como arquétipos que estruturam profundamente o nosso mundo interno.
A mãe: o primeiro espelho do Self
Para Jung, a mãe representa o arquétipo do cuidado, da nutrição, da proteção e do pertencimento. É através dela que a criança começa a sentir se o mundo é seguro, se há espaço para existir e se suas necessidades podem ser acolhidas.
Quando essa relação é atravessada por ausência emocional, rejeição, excesso de controle ou inversão de papéis, o Self pode se fragmentar. A pessoa cresce com a sensação de que precisa se adaptar para ser amada — muitas vezes se anulando.
Na vida adulta, isso pode aparecer como:
dificuldade de dizer “não”
culpa excessiva ao se priorizar
medo de abandono
relações de dependência emocional
A ferida materna não grita. Ela se infiltra. E, silenciosamente, ensina que amar é se perder.
O pai: a ponte para o mundo
O pai, na perspectiva junguiana, simboliza o arquétipo da lei, da estrutura, da direção e da inserção no mundo social. É ele quem, simbolicamente, ajuda o indivíduo a sair da fusão e a construir autonomia.
Quando o pai é ausente, rígido, crítico ou emocionalmente inacessível, essa função simbólica fica comprometida. A pessoa pode crescer sem um eixo interno de segurança, vivendo sob a sombra da exigência ou da insegurança.
As marcas da ferida paterna costumam aparecer como:
medo constante de errar
autocrítica severa
busca excessiva por aprovação
dificuldade em se posicionar
sensação de que nunca é suficiente
Nesse caso, o mundo deixa de ser um espaço de realização e passa a ser um tribunal interno permanente.
O impacto dessas feridas no processo de individuação
A individuação, para Jung, é o processo de tornar-se quem se é — integrando as partes conscientes e inconscientes da psique em direção à totalidade.
Quando as imagens internas de mãe e pai estão feridas, esse processo se torna mais difícil. A pessoa pode viver presa à repetição, tentando inconscientemente reparar o que faltou no passado, ao invés de seguir o próprio caminho.
A dor não integrada se transforma em destino.
Por isso, o trabalho terapêutico não busca culpar os pais reais, mas ressignificar os pais internos. É um movimento profundo de diferenciação: separar o que foi vivido do que continua sendo repetido.
A importância da terapia nesse caminho
Na terapia, é possível:
nomear dores que antes eram apenas sensações
diferenciar mãe e pai reais de suas imagens internas
integrar a sombra ligada a essas figuras
reconstruir o vínculo consigo mesmo
fortalecer o Self e recuperar autonomia emocional
A cura, na perspectiva junguiana, não é apagar o passado — é dar sentido a ele.
Quando isso acontece, algo muda silenciosamente:
a pessoa deixa de viver a partir da ferida
e começa a viver a partir de si.
Um convite final
Você não é o que faltou.
Você não é a ausência, a rigidez ou o silêncio que viveu.
Curar as feridas com a mãe e com o pai é um dos caminhos mais profundos de retorno ao Self.
E, muitas vezes, esse caminho não precisa ser trilhado sozinho.
Referências (base acadêmica)
Jung, C. G. Aion: Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Vozes.
Jung, C. G. O desenvolvimento da personalidade. Vozes.
Neumann, E. A Grande Mãe. Cultrix.
Neumann, E. A Criança: Estrutura e dinâmica da psicologia do inconsciente. Cultrix.
Von Franz, M.-L. Arquétipos e o inconsciente coletivo. Vozes.