A Conspiração Invisível

A Conspiração Invisível
(desconheço a autoria, mais gostei muito)

A gente já começa a desconfiar que alguma coisa está diferente.

Não é por causa da ausência das torres no horizonte ou da ameaça constante que espreita nossas janelas, começou muito antes disso.

Havia um murmúrio aqui, uma frase indignada ali, um grupo que passou a se reunir, gente se organizando.

A conspiração, tal qual o gotejar constante da água na rocha, vai formando estalactites culturais na sociedade.

É invisível porque está montada sobre teias de relações e de expectativas, mas não menos real do que qualquer coisa que se pode ver.

Afinal, não será o afeto também uma força invisível que conduz nossos destinos? Ou, mais profundamente, não será a alma em sua invisibilidade que nos oferece os maiores recursos da vida, que são o sonho e a esperança?



Invisível também essa conspiração silenciosa que sacode nossas consciências. Vamos percebendo um leve farfalhar do vento da angústia nas folhas onde escrevemos a história da vida. Não nos movemos em resposta ao conforto ou ao progresso, nosso movimento é resultado da aflição e de anseios não respondidos. E a conspiração invisível vai tomando vulto, ganhando formas em sua louca translucidez. De repente nos flagramos também conspiradores. Passamos a apreciar esse conluio, a torcer pela vitória da revolução evolucionária. Esse vácuo de compaixão que assola as salas acarpetadas vai sendo preenchido pelo éter elementar da solidariedade.Vai ganhando o imaginário coletivo, invadindo silenciosa e obstinadamente corações e mentes.

Assim, a conspiração sem coronéis, sem hierarquia, sem mandamentos, vai decorando o mundo com sua cor invisível. Vai ganhando as ruas, as cozinhas, os quintais, permeando corredores, entrelaçando-se com outras raízes, fecundando o cotidiano. A experiência humana, sua história e seus registros nunca antes viram tamanho movimento, tanto engajamento da gente simples, do professor e do doutor.

Tanta gente diferente desejando a mesma coisa, conspirando pelo mesmo fim, caminhando em direção aos mesmos propósitos.

Invisível em seus laços, mas perfeitamente claro para quem vai além dos olhos.

Um anseio, uma ansiedade, uma angústia, um trunfo que a natureza colocou a serviço do ser humano, o desejo inadiável de ir em frente, de ver dias melhores, de querer mais da vida. E o conspirador finalmente encontra quem lhe dê ouvido, onde oferecer seus préstimos, onde exercer suas convicções.

Na experiência compartilhada da estupefação ante um mundo arcaico em plena decadência, as novas idéias se unem sob a sombra de antigos e eternos ideais. Na contracorrente de uma globalização banalizadora, o ser humano se mundializa, torna-se parte do todo e não apartado do todo. O mundo passa a ser sua casa, um lugar para construir um lar, para amar e ser amado, um espaço para cuidar e preservar. Uma conspiração que encontra eco nos cumes brancos das maiores esperanças, no mais recôndito vale da existência. Uma voz que tem muitos sotaques, em diferentes linguagens, que adquire a cor de cada lugar e incorpora a cultura de cada povo.

Essa conspiração tão silenciosa é que está fazendo o maior barulho no mundo labiríntico da consciência. 

Despertando do longo sono da omissão, salvando de um pesadelo que é viver num mundo do qual se tem medo, a conspiração fluída e incorpórea vai iluminando os cantos escuros da apatia. Afetando até mesmo quem não a percebe, transformando mesmo quem está muito aquém dela, essa teia vai cobrindo os espaços entre as individualidades, ligando numa grande rede gente que nunca se viu, nem nunca vai se encontrar, mas que estão gerando a mesma energia, movidos pelo mesmo desejo.

É uma conspiração silenciosa, invisível, liberta dos vernizes que separam a existência da realidade.

Vai juntando gentes, se apropriando de idéias como se fossem suas, espalhando sementes e fertilizando condutas. Incorporando nossas experiências e atribuindo valor às nossas melhores expectativas, essa conspiração, graças aos céus do assombro do humano frente à própria história, vai se fortalecendo, mais e mais adeptos estão se juntando, até que todos nós, unidos pela vontade de fazer a diferença, poderemos deixar de conspirar e finalmente estabelecer o verdadeiro governo da humanidade: a Fraternidade Universal.

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