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Sou Consciência


Arquétipos pela Visão Critica de Ken Wilber

OS ARQUÉTIPOS DE JUNG
COMENTÁRIOS DE KEN WILBER

Tradução de Ari Raynsford (ari@interair.com.br)

1) Excertos da entrevista de Ken Wilber à jornalista alemã Edith Zundel (do livro Grace and Grit – Graça e Determinação)

EZ: Eu, Rolf e nossos leitores estamos particularmente interessados na interface entre psicoterapia e religião.

KW: E o que significa para você a palavra religião? Fundamentalismo? Misticismo? Exoterismo? Esoterismo?

EZ: Bem, este é um bom ponto para começarmos. Se não me engano, em Um Deus Social você apresentou onze diferentes definições para religião ou onze diferentes maneiras como é usada a palavra religião.

KW: Sim, e minha opinião é que não podemos falar de ciência e religião, ou de psicoterapia e religião, ou de filosofia e religião antes de definir o que entendemos pela palavra religião. E visando ao nosso objetivo, no momento, penso que devemos distinguir pelo menos entre o que é conhecido por religião exotérica e religião esotérica. A religião exotérica ou “exterior” é religião mítica, religião que é terrivelmente concreta e literal, que realmente acredita, por exemplo, que Moisés abriu o Mar Vermelho, que Cristo nasceu de uma virgem, que o mundo foi criado em seis dias, que, um dia, literalmente choveu maná do céu, e assim por diante. Em todo o mundo, religiões exotéricas consistem desses tipos de crenças. Os hindus acreditam que a Terra deve estar apoiada em algo; assim, crêem encontrar-se sobre um elefante que, também necessitando de suporte, está sobre uma tartaruga; esta, por sua vez, encontra-se sobre uma serpente. E quando surge a pergunta “Em que a serpente está apoiada?”, a resposta dada é “Mudemos de assunto”. Lao Tsé nasceu com novecentos anos, Krishna acasalou-se com quatro mil vacas, Brahma nasceu da quebra de um ovo cósmico etc. Isto é religião exotérica, uma série de estruturas de crenças que tentam explicar os mistérios do mundo em termos míticos ao invés de termos testemunhais ou de experiência direta.



EZ: Assim, a religião exotérica ou exterior é, basicamente, uma questão de crença, não de evidências.

KW: Sim. Se você acredita em todos os mitos, será salvo; se não, vai para o Inferno – sem discussão. Esse tipo de religião é encontrado no mundo inteiro – fundamentalismo. Não tenho nada contra, apenas este tipo de religião, religião exotérica, nada tem a ver com a religião mística, ou religião esotérica, ou religião experiencial, que é o tipo de religião ou espiritualidade que me interessa.

EZ: O que significa esotérico?

KW: Interior ou oculto. O fato de a religião esotérica ou mística ser oculta não é porque seja secreta ou algo assim, mas sim porque é uma questão de experiência direta ou percepção pessoal. A religião esotérica não pede que você acredite em nada na base da fé ou que engula obedientemente qualquer dogma. Ao contrário, a religião esotérica é um conjunto de experimentos pessoais conduzidos cientificamente no laboratório da sua própria consciência. Como toda boa ciência, é baseada na experiência direta, não em simples crenças ou desejos, e pode ser verificada e validada por outras pessoas que também tenham executado o experimento. O experimento é a meditação.

EZ: Mas meditação é privada.

KW: Não, não é. Não mais do que, digamos, a matemática. Não há, por exemplo, nenhuma prova de que menos um elevado ao quadrado é igual a um; não há nenhuma prova sensória ou empírica para isso. É verdadeiro, mas somente é provado por uma lógica interna. Você não consegue encontrar menos um no mundo exterior; somente o encontra na sua mente. Mas isto não significa que não seja verdade, que seja conhecimento privado que não possa ser validado publicamente. Significa somente que esta verdade é validada por uma comunidade de matemáticos treinados, por todos aqueles que sabem como funciona o experimento lógico que irá definir sua veracidade. Do mesmo modo, o conhecimento meditativo é conhecimento interno, mas conhecimento que pode ser validado publicamente por uma comunidade de meditadores treinados, aqueles que conhecem a lógica interna da experiência contemplativa. Não se admite que qualquer pessoa opine sobre a verdade do teorema de Pitágoras; somente matemáticos treinados estão capacitados a fazê-lo. Da mesma maneira, a espiritualidade meditadora faz certas afirmações – por exemplo, que se você olhar profundamente para o seu eu interior sentirá que ele é uno com o mundo exterior – mas a veracidade delas deve ser verificada por você e qualquer outra pessoa que tente fazer o experimento. E após algo como seis mil anos em que este experimento vem sendo realizado, sentimo-nos perfeitamente tranqüilos em tirar certas conclusões, em desenvolver certos teoremas espirituais, por assim dizer. E esses teoremas espirituais são o núcleo das tradições da sabedoria perene.

EZ: Mas por que ela é chamada “oculta”?

KW: Porque se você não realiza o experimento, então não sabe o que está acontecendo, não está em condições de opinar, do mesmo modo que se você não aprende matemática, não consegue discutir a veracidade do teorema de Pitágoras. Quero dizer, você pode ter opinião a respeito, mas o misticismo não está interessado em opiniões, mas sim em conhecimento. A religião esotérica ou misticismo encontra-se oculta para a mente daqueles que não realizam o experimento; é isso que significa a palavra “oculta”.

EZ: Mas as religiões variam muito entre si.

KW: As religiões exotéricas variam tremendamente entre si; as religiões esotéricas são virtualmente idênticas em todo o mundo. Como já vimos, o misticismo (ou esoterismo) é científico, no sentido mais amplo da palavra, e do mesmo modo que não se tem química alemã versus química americana, não existe ciência mística hinduísta versus ciência mística islâmica. Ao contrário, elas concordam fundamentalmente no que diz respeito à natureza da alma, à natureza do Espírito e à natureza da sua suprema identidade, entre outras coisas. Isto é o que os eruditos chamam de “unidade transcendental das religiões do mundo” – eles referem-se às religiões esotéricas. É claro, suas estruturas superficiais variam tremendamente, mas suas estruturas profundas são virtualmente idênticas, refletindo a unanimidade do espírito humano sobre as leis desveladas fenomenologicamente.

EZ: Isto é muito importante; então, acho que você não acredita, diferentemente de Joseph Campbell, que as religiões míticas carregam algum conhecimento espiritual válido.

KW: Você é livre para interpretar os mitos religiosos exotéricos como bem lhe aprouver. Pode, como faz Campbell, interpretar mitos como sendo alegorias ou metáforas para verdades transcendentais. Livre, por exemplo, para interpretar a imaculada conceição como Cristo nascendo espontaneamente do seu verdadeiro Eu, com “E” maiúsculo. O problema é que os crentes míticos não acreditam nisso. Eles acreditam, como prova da sua fé, que Maria era realmente uma virgem biológica quando engravidou. Os crentes míticos não interpretam seus mitos alegoricamente, eles os interpretam literal e concretamente. Joseph Campbell viola o tecido das crenças míticas na sua tentativa de salvá-las. Isto é erudição inaceitável. Diz-se para o crente mítico, “Sei o que você realmente entende por aquilo”. Mas o problema é que não é o que ele realmente acredita. Em minha opinião, sua abordagem é fundamentalmente errada já de início.
Esses tipos de mitos são muito comuns entre seis e onze anos de idade; são produzidos natural e facilmente pelo nível da mente que Piaget denomina operacional concreto. Basicamente, todos os fundamentos dos grandes mitos exotéricos do mundo podem ser colhidos das produções espontâneas de crianças de sete anos, como o próprio Campbell concorda. Mas logo que a próxima estrutura da consciência – chamada operacional formal ou racional – emerge, as produções míticas são abandonadas pela própria criança. Ela não acredita mais nelas, a menos que viva em uma sociedade que recompense essas crenças. Mas, de uma maneira geral, a mente racional e reflexiva acredita que os mitos são exatamente isso, mitos. Uma vez úteis e necessários, mas não mais sustentáveis. Eles não contêm o conhecimento testemunhal que afirmam ter e, uma vez testados cientificamente, desmoronam. A mente racional olha, por exemplo, para a imaculada conceição e somente sorri. A mulher engravida, vai ao seu marido e diz, “Olhe, estou grávida, mas não se preocupe, não dormi com outro homem. O verdadeiro pai não é deste planeta.”

EZ: (Rindo) Mas alguns seguidores das religiões míticas interpretam de fato seus mitos alegórica ou metaforicamente.

KW: Sim, esses são os místicos. Isto é, os místicos são aqueles que dão um significado esotérico ou “oculto” para os mitos e esses significados são descobertos através da experiência direta, interior e contemplativa, e não de algum sistema exterior de crença, símbolo ou mito. Em outras palavras, eles não são crentes míticos, mas sim fenomenologistas contemplativos, místicos contemplativos, cientistas contemplativos. Isto explica porque historicamente, como salienta Alfred North Whitehead, o misticismo tem sempre se aliado à ciência contra a Igreja, uma vez que ambos, misticismo e ciência, dependem de evidências diretas consensuais. Newton foi um grande cientista; foi também um místico profundo, e não havia, como não há, nenhum conflito nisso. Por outro lado, você não pode ser um grande cientista e um grande crente mítico ao mesmo tempo.
Além disso, os místicos são aqueles que concordam que sua religião é basicamente idêntica em essência a outras religiões místicas – “eles chamam de muitas maneiras Aquele que realmente é Um.” Agora, você não encontra um crente mítico, por exemplo um Protestante fundamentalista, dizendo que o Budismo também é um caminho perfeito para a salvação. Crentes míticos afirmam que eles possuem o único caminho porque baseiam sua religião em mitos exteriores, que são diferentes entre si; eles não compreendem a unidade interior oculta nos símbolos exteriores; os místicos o fazem.

EZ: Sim, entendo. Então você não concorda com Carl Jung que os mitos carregam arquétipos e, nesse sentido, importância mística ou transcendental.

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Eu já esperava que essa pergunta aparecesse. Então, como agora, a proeminente figura de Carl Jung – Campbell é um dos seus muitos seguidores – domina completamente o campo da psicologia da religião. Quando comecei neste campo, eu , como a maioria, acreditava piamente nos conceitos centrais de Jung e nos esforços pioneiros que realizou nessa área. Mas ao longo dos anos passei a acreditar que Jung cometeu erros profundos e esses erros são o principal grande obstáculo no campo da psicologia transpessoal, pior ainda porque foram muito difundidos e, aparentemente, não refutados. Nenhuma conversa sobre psicologia e religião poderia continuar até que este delicado e difícil tópico fosse discutido; assim, na próxima meia-hora Edith e eu falamos sobre ele. Eu realmente discordo da posição de Jung de que os mitos são arquetípicos e portanto místicos?

KW: Jung descobriu que os homens e mulheres modernos podem, espontaneamente, produzir virtualmente todos os principais temas das religiões míticas do mundo; eles o fazem em sonhos, em imaginação ativa, em associação livre e assim por diante. Daí, ele deduziu que as formas míticas básicas, que ele chamou de arquétipos, são comuns a todas as pessoas, são herdadas por todas as pessoas e são transmitidas por aquilo que ele chamou de inconsciente coletivo. Cito sua afirmação: “misticismo é experiência de arquétipos”.
Em minha opinião, há vários erros cruciais nessa visão. Primeiro, é totalmente verdadeiro que a mente, mesmo a mente moderna, pode produzir espontaneamente forma míticas que são, em essência, similares àquelas encontradas nas religiões míticas. Como já disse, os estágios pré-formais do desenvolvimento da mente, particularmente os pensamentos pré-operacional e operacional concreto são, pela sua própria natureza, produtores de mitos. Uma vez que todos os homens e mulheres modernos passam por esses estágios de desenvolvimento na infância, naturalmente todos os homens e mulheres têm acesso espontâneo a esse tipo de estrutura de produção de pensamento mítico, especialmente em sonhos, onde os níveis primitivos da psique podem vir à tona com mais facilidade.
Mas não há nada de místico nisso. De acordo com Jung, arquétipos são formas míticas básicas destituídas de conteúdo; misticismo é consciência sem forma. Não há ponto de contato.
Segundo, há o próprio uso que Jung faz da palavra “arquétipo”, conceito que ele tomou emprestado de grandes místicos, como Platão e Agostinho. Mas o modo como Jung usa o termo não é o modo que esses místicos o usam, nem mesmo, de fato, é o modo que místicos do mundo inteiro o usam. Para os místicos – Shankara, Platão, Agostinho, Eckhart, Garab Dorje e outros – arquétipos são formas sutis primordiais que aparecem à medida que o mundo se manifesta a partir do Espírito informe e não-manifesto. Eles são os padrões sobre os quais todos os outros padrões de manifestação se baseiam. Do grego arche typon, padrão original. Formas sutis, transcendentais que são as formas primordiais de manifestação, não importa se a manifestação é física, biológica, mental etc. E na maioria das formas de misticismo, esses arquétipos são, basicamente, padrões radiantes ou pontos de luz, iluminações audíveis, formas e luminosidades brilhantemente coloridas, arco-íris de luz, som e vibração – através dos quais, em manifestação, o mundo material é condensado, se assim podemos nos expressar.
Mas Jung usa o termo para certas estruturas míticas básicas que são comuns à experiência humana como o trickster (trapaceiro, vigarista, brincalhão), a sombra, o Velho Sábio, o ego, a persona, a Grande Mãe, a anima, o animus etc. Eles são mais existenciais do que transcendentais. São simplesmente facetas das experiências comuns do dia-a-dia da condição humana. Concordo que essas formas míticas são herdadas coletivamente pela psique. E também concordo inteiramente com Jung que é muito importante chegar a um acordo com esses “arquétipos” míticos.
Por exemplo, se estou tendo problemas psicológicos com minha mãe, se sofro o assim chamado complexo materno, é importante entender que muito dessa carga emocional não decorre da minha mãe individual, mas sim da Grande Mãe, uma poderosa imagem do meu inconsciente coletivo que é, em essência, a destilação das mães de todo o mundo. Isto é, a psique vem com a imagem da Grande Mãe embutida nela, do mesmo modo como já vem equipada com as formas rudimentares de linguagem e de percepção, e de variados padrões instintivos. Se a imagem da Grande Mãe for ativada, não estarei interagindo somente com minha mãe individual, mas sim com milhares de anos da experiência humana com a maternidade em geral; assim, a imagem da Grande Mãe carrega uma carga e tem um impacto muito além daqueles que minha própria mãe poderia gerar. Entrar em acordo com a Grande Mãe pelo estudo dos mitos do mundo é um bom caminho para tratar com aquela forma mítica, torná-la consciente e diferenciar-se dela. Concordo inteiramente com Jung neste ponto. Mas essas formas míticas nada têm a ver com misticismo, com a genuína consciência transcendental.
Deixe-me explicar de maneira mais simples. Em minha opinião, o principal erro de Jung foi confundir coletivo com transpessoal (ou místico). Simplesmente porque minha mente herda certas formas coletivas não significa que essas formas são místicas ou transpessoais. Por exemplo, todos herdamos coletivamente dez dedos dos pés, mas se experiencio meus dedos não estou tendo uma experiência mística! Os “arquétipos” de Jung virtualmente nada têm a ver com a genuína consciência espiritual, transcendental, mística, transpessoal; ao contrário, são formas coletivamente herdadas que distilam alguns dos mais básicos encontros existenciais do dia-a-dia da condição humana – vida, morte, mãe, pai, sombra, ego etc. Nada místico. Coletivo, sim; transpessoal, não.
Há o coletivo pré-pessoal, o coletivo pessoal e o coletivo transpessoal; Jung não os diferencia com a clareza necessária; e isso gera um desvio em todo o seu entendimento do processo espiritual, em minha opinião.
Assim, concordo com Jung que é muito importante entrar num acordo com as formas de ambos os inconscientes míticos, o pessoal e o coletivo; mas nenhum deles tem muito a ver com o misticismo real que, primeiro, descobre a luz além da forma, para, depois, chegar ao informe além da luz.

EZ: Mas trabalhar com material arquetípico da psique pode ser uma experiência poderosa, algumas vezes irresistível.

KW: Sim, porque é coletivo; seu poder vai muito além do individual; possui o poder de milhões de anos de evolução por trás de si. Mas coletivo não é transpessoal. O poder dos “arquétipos verdadeiros”, os arquétipos transpessoais, provém diretamente do fato de serem as formas primordiais do Espírito intemporal; o poder dos arquétipos junguianos provém do fato de serem as formas mais antigas da história temporal.
Como o próprio Jung ressaltou, é necessário afastarmo-nos dos arquétipos, diferenciarmo-nos deles, livrarmo-nos do seu poder. Ele chamou esse processo de individuação. E, novamente, concordo inteiramente com ele sobre esse ponto. Devemos nos afastar dos arquétipos junguianos.
Mas devemos nos aproximar dos arquétipos verdadeiros, os arquétipos transpessoais, para, em última instância, conseguirmos uma mudança integral de identidade para a forma transpessoal. O único arquétipo junguiano que é genuinamente transpessoal é o Self, mas mesmo sua discussão sobre ele, em minha opinião, deixa a desejar pelo fato de Jung não enfatizar suficientemente seu essencial caráter não-dual.

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2) Comentários de Ken Wilber à crítica de Bryan Wittine a Sex, Ecology, Spirituality publicada no The Journal of Transpersonal Psychology nº 27 – 1995 (do livro The Eye of Spirit)

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A segunda crítica de Wittine refere-se ao meu tratamento de Jung e dos arquétipos. Novamente, posso entender como Bryan obteve algumas de suas impressões do breve resumo que apresentei em SES (Sex, Ecology, Spirituality). O problema é que Jung (e seus seguidores) tinham três diferentes usos para “arquétipo” e há dificuldades insuperáveis com todos eles.

O primeiro uso, e o mais comum, é imagem arcaica. Esta foi a formulação original de Jung e ainda é a predominante e a mais largamente usada (por exemplo, pelo movimento mitopoético, movimento masculino e psicologia folclórica). Essas imagens arcaicas coletivamente herdadas, acreditava Jung, eram uma herança filogenética, “a percepção instintiva de si mesmo”. Jung acreditava que um particularmente rico repositório desses arquétipos poderia ser encontrado nas mitologias do mundo (o que levou os primeiros críticos de Jung a acusá-lo de “mitomania”). Essas imagens míticas arcaicas eram não-racionais e, por causa disso, Jung achou que elas eram uma fonte direta de consciência espiritual, o que é exatamente o que ele tinha em mente quando afirmou que “misticismo é experiência de arquétipos”.

Neste uso, Jung é definitivamente culpado da falácia pré-trans. Simplesmente, ele não diferencia com suficiente clareza as situações pré-racionais e transracionais, e, assim, tende a elevar infantilismos pré-racionais a glórias espirituais, simplesmente porque ambos não são racionais. Este uso para “arquétipo”, porque ainda é o mais comum e o mais largamente associado ao nome de Jung, é o que mais tenho criticado. Nele, os arquétipos são encontrados nos estágios primitivos da evolução, filogenética e ontogenética. Assim, tenho assinalado que essas imagens “arquetípicas” arcaicas deveriam realmente ser chamadas de “protótipos”, porque são formas pré-racionais, mágicas e míticas, e não formas sutis, transracionais e pós-pós-convencionais (que é o modo como os arquétipos são usados na Filosofia Perene, de Plotino a Garab Dorje, a Asanga e Vasubandhu).[1]

O segundo uso para arquétipo dado por Jung era muito mais abrangente; simplesmente referia-se a arquétipos como “formas desprovidas de conteúdo” herdadas coletivamente. Em O Projeto Atman cito-o dizendo exatamente isso e ressalto que se essa é nossa definição para arquétipo, então todas as estruturas profundas de cada nível do espectro da consciência (exceto a informe) podem ser chamadas de arquetípicas, e isto para mim está bem. Mas, então, os arquétipos não têm absolutamente nada a ver com imagens arcaicas, não é mesmo?

Este uso para arquétipo (como estruturas profundas desprovidas de conteúdo) é um dos usos que Wittine deseja reabilitar. “Meu entendimento é que arquétipos são predisposições estruturais inatas definíveis somente em termos de princípios ordenadores, nunca em termos de conteúdo específico.” Wittine afirma que ignoro este uso, o que não é o caso, como acabamos de ver. Simplesmente, chamo a atenção para o fato que essa definição é totalmente discordante do primeiro e mais comum uso dado por Jung. Se Wittine deseja seguir essa definição, isto é plenamente aceitável, mas há necessidade de bastante esclarecimento a fim de diferenciá-la do primeiro uso e evitar massivas falácias pré-trans. Eu, particularmente, não considero a literatura junguiana útil nesse ponto.

O terceiro uso que Jung e seus seguidores dão para arquétipo está mais alinhado com a Filosofia Perene, que vê os arquétipos como as primeiras formas na involução. O mundo manifesto inteiro origina-se do Informe (ou Abismo causal) e as primeiras formas a surgir, sobre as quais as demais se apoiarão, são “arque-formas” ou arquétipos. Assim, neste uso, os arquétipos são as mais elevadas Formas das nossas próprias possibilidades, as Formas mais profundas dos nossos próprios potenciais – mas também as últimas barreiras para o Informe e Não-dual. Como as primeiras (e primordiais) formas na involução ou manifestação (ou movimento de distanciamento da Fonte causal), os arquétipos são as derradeiras (e mais elevadas) formas na evolução ou retorno para a Fonte. Como as Formas bem mais próximas do Informe, eles são as primeiras formas que a alma assume à medida que se contrai diante do infinito e esconde sua verdadeira natureza; mas, exatamente por isso, também são os faróis mais altos no caminho de volta para o Informe e a barreira final a ser destruída às margens do infinito radiante.[2]

(E note: porque esses arquétipos são as primeiras formas no início da involução, eles são quase o exatamente oposto das imagens arcaicas, que são algumas das primeiras formas que surgem no início da evolução – mais uma razão porque a confusão entre eles tem causado tantos pesadelos teóricos).[3]

Ocasionalmente, Jung e os junguianos usam arquétipo com esse sentido mais elevado, mas, mesmo aí, tende a ser uma discussão bastante anêmica. Creio que Hameed Ali[4] resumiu a situação de um modo brutal, porém preciso: “Jung chegou muito próximo à essência [do arquétipo superior] e suas várias manifestações, mas ficou no nível da imaginação. Assim, ele ficou aquém das expectativas na compreensão e na vivência da essência [arquetípica] e sua psicologia permaneceu como uma construção mental não diretamente ligada à presença da essência.”[5]

Assim, Jung e os junguianos apresentam três diferentes usos para “arquétipo” e todos eles, acredito, são problemáticos. As imagens arcaicas existem, mas têm muito pouco, ou nada, a ver com o desenvolvimento pós-pós-convencional. Arquétipos como estruturas profundas isentas de significado são uma utilização aceitável, mas está quase totalmente em oposição ao primeiro uso (e.g., formal-operacional é uma estrutura profunda e, nesse sentido, é “arquetípica”, mas não se encontra formop em imagens arcaicas) e acho o desenvolvimento junguiano desse uso bastante limitado e inútil. Finalmente, arquétipo como “arquétipo alto” (as primeiras formas na involução, as derradeiras formas na evolução) também é aceitável, mas, aqui, concordo com Ali que o uso junguiano é anêmico.

E em todos os três usos, o arquétipo junguiano é ainda profundamente monológico.[6] Por todas essas razões, cada vez mais acho que a abordagem junguiana, embora pioneira, não é proveitosa para os estudos transpessoais da terceira onda.[7] Obviamente, qualquer pessoa pode desenvolver um exercício exemplar do caminho junguiano, usando suas forças para transcender suas limitações. Bryan Wittine é uma delas e há muitas outras. Entretanto, acredito que a luz junguiana deve ser usada com muita cautela.


[1] A propósito, como sempre ressaltei, concordo com Jung com respeito à natureza dessas imagens arcaicas enquanto imagens arcaicas: acredito que elas são herdadas coletivamente, um tipo de herança filogenética (um ponto que Freud também aceitava); são importantes em certos tipos de patologia; podem ser encontradas abundantemente nas mitologias mundiais; freqüentemente aparecem em sonhos; e assim por diante. Mas essas imagens arcaicas têm muito pouco, senão nada, a ver com o desenvolvimento pós-pós-convencional. Uma das falácias pré-trans de Jung foi confundir coletivo com transpessoal, uma vez que há estruturas de coletivo pré-pessoal, coletivo pessoal e coletivo transpessoal.

[2] Há muitas maneiras de descrever os arquétipos como usados pela Filosofia Perene. Se você está em meditação informe (cessação ou nirvikalpa samadhi), os primeiros fenômenos com que você se defronta na cessação são exatamente os arquétipos. Eles são formas sutis, sons, iluminações, influências, correntes energéticas etc. Do mesmo modo, a cada noite, quando você sai de um sono profundo sem sonhos e começa a sonhar, as primeiras formas que você vê são arquétipos. Na yoga anuttaratantra, à medida que você cai no escuro perto da realização, as primeira formas vistas são arquétipos.
O que tudo isso tem em comum é que os arquétipos são as formas primordiais localizadas na fronteira entre o não-manifesto causal e a primeira manifestação do nível sutil. Assim, eles são as primeiras e primordiais formas na involução ou manifestação (ou movimento de distanciamento da Fonte causal) e as últimas e mais elevadas formas na evolução ou retorno à Fonte (e, desse modo, também as barreiras finais).
Como disse, esses arquétipos são formas sutis, iluminações, correntes energéticas, sons, influenciações extremamente sutis e assim por diante – as primeiras formas do ser, sobre as quais o ser menor será modelado; as primeiras formas de influenciação sobre as quais os sentimentos menores serão um reflexo obscuro; as primeiras formas da consciência manifesta sobre as quais toda a cognição menor será uma pálida reflexão; as primeiras formas de som sobre as quais todos os sons inferiores serão um eco vazio. E, assim, os arquétipos, os verdadeiros arquétipos, são as Formas do nosso potencial superior; as Formas da nossa verdadeira natureza conclamando-nos a relembrar quem e o que realmente somos. E em sua derradeira ação, são abandonadas e destruídas – a escada que, tendo servido ao seu propósito, é posta de lado – e, aí, em substituição, aparece o infinito radiante que esteve sempre presente, brilhando inteiramente através e além dessas Formas.

[3] Mais problemático ainda é o fato que os mecanismos de herança desses dois tipos de “arquétipos” não são sequer vagamente os mesmos. Imagens arcaicas são herdadas de experiências comuns de outrora. Mas as estruturas profundas superiores (ou arquétipos superiores) nunca foram uma experiência comum do passado e, assim, nem mesmo têm a mesma origem. (A razão é que os “arquétipos altos” são perdidos no início da involução; os ‘arquétipos baixos” ou imagens arcaicas são perdidos no início da evolução. Não vi nenhum junguiano fazer esta distinção e isto faz claudicar o impulso completo da psicologia “arquetípica”, constantemente contaminando mesmo suas mais sofisticadas variantes com falácias pré-trans.)

[4] Hameed Ali (que escreve sob o pseudônimo de A. H. Almaas) desenvolveu a Abordagem do Diamante, considerada por Wilber uma soberba combinação do melhor da psicologia moderna ocidental com o melhor da sabedoria antiga (e espiritual). É um tipo de abordagem mais integral, unindo o Ascendente e o Descendente, o espiritual e o psicológico, em uma forma coerente e efetiva de trabalho interior. (N.T.)

[5] A. H. Almaas Essence (1986) York Beach, Maine: Weiser, pg. 20.

[6] “Arquétipos” junguianos são essencialmente monológicos, embora coletivos. Isto é, eles são basicamente estruturas subjetivas coletivas, não intersubjetivas coletivas. Assim, por exemplo, a imagem subjetiva da Grande Mãe origina-se de padrões intersubjetivos que não são encontrados em nenhuma das listas de arquétipos apresentadas pelos junguianos, exatamente porque esses padrões intersubjetivos não são objeto da fenomenologia monológica e, assim, não foram nunca desvelados por nenhuma das técnicas de consulta de junguianos e neo-junguianos. Jung e seus muitos seguidores mantêm-se firmemente dentro da tradição monológica, embora, como indiquei, tenham estendido frutiferamente o conteúdo e a abrangência dessa fenomenologia.

[7] Wilber refere-se às três ondas da Psicologia: 1ª) behaviorismo; 2ª) psicologia de profundidade (psicanálise, junguiana, gestalt, fenomenológica-existencial e humanística); e 3ª) psicologia transpessoal. (N.T.)

Fonte: http://www.ariray.com.br/


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