Uma Visão sobre ECOLOGIA


Barsa
Textos publicados no sítio "Barsa".

Ecologia
Ecologia é a ciência que estuda as relações entre os seres vivos e o mundo a seu redor. O nome foi proposto, em 1868, pelo zoólogo alemão Ernst Haeckel, e deriva de duas palavras gregas: oikos, que quer dizer casa, lar, habitação, lugar onde se vive; e logos, que significa palavra, conhecimento, estudo.

Como a ecologia estuda os seres vivos, ela é geralmente considerada uma parte da biologia. Desde muito tempo já se sabia que a vida dos animais e das plantas depende das condições do mundo à sua volta, e que os tipos de plantas e animais variam de acordo com o lugar onde vivem. Mas foi no século XIX que os zoólogos (aqueles que estudam os animais) e botânicos (aqueles que estudam as plantas) começaram a perceber que a influência de fatores do clima (temperatura, umidade, quantidade de chuvas, ventos etc.) e de vários outros fatores era muito maior e mais complexa do que se imaginava. O bem-estar dos seres vivos depende não só de condições físicas e químicas adequadas como também da presença ou ausência de outros animais e plantas. Por isso, sentiu-se a necessidade de uma disciplina que estudasse as relações dos seres vivos com o mundo que os rodeia.


Terminologia básica. Ao conjunto dos fatores e elementos que envolvem os seres vivos dá-se o nome de meio ambiente (ou apenas meio, ou apenas ambiente, pois as duas palavras querem dizer mais ou menos a mesma coisa). Meio ambiente é o conjunto de tudo aquilo que, direta ou indiretamente, influi sobre a vida de um ou mais seres vivos, e é por eles também influenciado. Percebeu-se que tudo na natureza está inter-relacionado, de uma maneira ou outra, e mesmo detalhes que parecem insignificantes acabam desempenhando um papel considerável. Assim, o meio ambiente inclui todos os elementos e características da paisagem em que vive um ser ou um grupo de seres.

Muitos fatores, além do clima, influem sobre a vida dos animais e plantas: a quantidade de luz, o tipo de solo, a altitude, a quantidade de oxigênio e de outras substâncias nutrientes ou tóxicas etc. Cada espécie, animal ou vegetal, tem suas necessidades, e cada espécie e cada indivíduo são, de um modo ou de outro, sensíveis às modificações desses fatores. Habitat (que tem a mesma origem que a palavra habitação) é o local ou região, ou tipo de local ou região, em que vive um ser vivo, ou uma espécie. A idéia de habitat inclui não só o local, mas o clima, as características geológicas do terreno etc.

Outro tipo de influência muito importante para a vida dos animais e das plantas é a presença de outros seres vivos a seu redor. Sem eles, é impossível a vida de qualquer ser, do vírus à baleia.

Alguns seres vivem em grupos ou sociedade. Outros vivem solitários; encontram seus semelhantes apenas na época da reprodução. Todos eles necessitam, porém, de animais e plantas diferentes dos de sua própria espécie para que tenham alimento e outras condições necessárias à vida. Daí vem a idéia de comunidade, grupo de diferentes plantas ou animais que, em condições naturais, vivem no mesmo lugar. Desde o século XIX, percebeu-se que as comunidades de plantas e animais se integram ou se associam. Assim, a vida não existe isoladamente, mas como que formando uma teia ou rede que se estende pelo meio ambiente.

Estudos ecológicos. A influência das condições físicas e das características biológicas de um lugar sobre a vida pode ser estudada de várias formas. Uma delas é a observação das relações entre os indivíduos de uma determinada espécie e o meio ambiente. A esse estudo dá-se o nome de autoecologia. Já o estudo das influências do meio ambiente sobre grupos inteiros de seres diferentes (as comunidades) tem o nome de sinecologia.

Há vários campos ou áreas de interesse nos estudos ecológicos. A ecologia vegetal ou fitoecologia se dedica ao estudo das comunidades vegetais e a ecologia animal ao das comunidades animais. Outro tipo de estudo é o do funcionamento do organismo, de acordo com as condições do meio ambiente: é a chamada ecologia fisiológica. As características genéticas de raças e espécies próprias de um determinado local ou ambiente são analisadas pela ecologia genética, que observa de que maneira e em que medida se dão as trocas de energia (por exemplo, através de alimentação). A ecologia dinâmica se interessa por todos os processos de modificação, como aumento ou diminuição das populações, aparecimento de diferenças entre os seres (por exemplo, surgimento de novas raças ou variedades) etc.

Outro tipo de divisão dentro da ecologia pode ser feito de acordo com os ambientes estudados. Existe a ecologia marinha, que estuda a vida nos mares e oceanos; a ecologia de água doce, também chamada limnologia, que estuda a vida nos lagos e rios; e a ecologia terrestre. Além disso, uma parte importante da ecologia estuda a maneira como as diferentes espécies de seres vivos se distribuem pelas diferentes regiões geográficas do planeta: é a biogeografia. Essa disciplina se divide em fitogeografia (distribuição das plantas pelas regiões geográficas) e zoogeografia (relação entre a vida animal e a geografia).

São tantos elementos e fatores diferentes a influir na vida dos animais e plantas que o ecologista precisa conhecer várias outras ciências. Podem ser mencionadas a química, a meteorologia, a geologia, a pedologia (ciência dos solos), a paleontologia (estudo, através dos fósseis, das formas de vida desaparecidas), a geografia, a demografia e a estatística (métodos matemáticos de contagem das populações e avaliação de suas características).

Dois conceitos fundamentais. Os conhecimentos adquiridos sobre os animais e as plantas foram mostrando que a vida é um fenômeno muito complexo. Com a descoberta da célula, os cientistas perceberam que também as unidades ou "pedaços" que formam o corpo estão vivas, e que dentro dessas unidades (as células) há elementos menores que também funcionam de modo organizado e coordenado. A química ajudou a desvendar as reações complicadas e muito numerosas envolvidas no funcionamento das células e dos organismos. A teoria da evolução mostrou que as espécies não permanecem sempre idênticas, mas vão se modificando, adaptando-se a modificações do mundo à sua volta. As características de cada espécie são passadas de geração a geração, recombinam-se e sofrem pequenas alterações chamadas mutações.

Esses e muitos outros fatos fizeram surgir a noção de que a vida é um tipo de organização da matéria, no qual elementos, forças e processos dos mais variados estão interligados. As observações da ecologia ajudaram a completar essa noção, mostrando que para entender a vida não basta conhecer o funcionamento dos órgãos que constituem o ser vivo, das células que formam esses órgãos e das moléculas e reações químicas encontradas nessas células. É preciso também entender o que acontece fora dos seres vivos e entre eles.

É como se a cadeia da vida tivesse vários níveis de complexidade e de organização. Em cada nível, vários elementos e processos se combinam e formam um todo. Esse conjunto, por sua vez, é uma unidade que, ao lado de outras, integra um conjunto ainda maior. Cada conjunto tem características próprias, que não podem ser conhecidas apenas através das características e funcionamento das suas partes. Por exemplo: a molécula da água é um conjunto de dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Mas suas características não são a soma das características desses átomos. Da mesma forma, a célula tem uma unidade que é mais que a reunião de moléculas e corpúsculos no seu interior. Para entender uma célula, é preciso conhecer seu lugar e sua função no conjunto maior de que faz parte: um órgão ou o organismo.

A ecologia descobriu que a vida não se limita aos seres individuais. Também eles são parte de um conjunto integrado, de uma unidade maior, que tem características próprias. É um nível a mais na cadeia da vida. Esse conjunto, que integra seres vivos e também elementos inorgânicos e sem vida, é o ecossistema.
Ecossistema. Como o nome já diz, ecossistema é um sistema ecológico. Sistema é um conjunto de elementos que se relacionam entre si de tal maneira que, quando um elemento é alterado, ou quando a relação que existe entre dois elementos é alterada, mudam também as relações entre todos os outros elementos do conjunto. Um exemplo de sistema não-ecológico é um jogo de damas ou de xadrez. Basta mover ou eliminar uma peça e toda a situação do jogo se modifica: uma peça que estava em perigo pode deixar de ficar, outra peça passa a ameaçar o inimigo; um jogador que estava perdendo pode passar a ter chances de vitória etc.

O jogo de xadrez é composto pelo tabuleiro e pelas peças (rei, dama, torres, cavalos, bispos e peões), e também fazem parte dele as regras que determinam as jogadas possíveis. Já o ecossistema é formado pelo ambiente físico e químico (o ar, o terreno e as substâncias que nele se encontram etc.) e por todos os seres vivos nele presentes. Além disso, constituem o ecossistema as relações entre os seres vivos e entre eles e seu habitat. É como se o ambiente fosse o tabuleiro; os seres vivos, as peças; e as relações entre eles, as regras do jogo.

Seres autótrofos e heterótrofos. A principal relação que se estabelece entre os elementos vivos de um ecossistema é a de transferência de energia e matéria. Praticamente toda a energia que existe nos ecossistemas vem do Sol. Essa energia chega à Terra na forma de luz e calor e se transforma de várias maneiras. É essa energia que faz funcionar o motor da vida: é dela que os seres vivos se utilizam para todas as suas funções e atividades.

Entretanto, nem todos os seres vivos utilizam diretamente a luz do Sol. Os únicos capazes de fazer isso são os vegetais que têm clorofila. Graças a essa substância, esses vegetais realizam o processo denominado fotossíntese, pelo qual a energia, recebida em forma de luz, é transformada e armazenada em forma de energia química e aproveitada para transformar substâncias minerais inorgânicas nas complexas substâncias ou moléculas necessárias para realizar e manter os processos vitais. É preciso lembrar que mesmo a forma mais simples de vida, o vírus, que não passa de uma molécula, é na verdade uma molécula muito complexa, que reúne milhares e milhares de átomos, organizados de tal maneira que a molécula é capaz de se reproduzir, quando encontra uma célula adequada.

Por isso, dá-se a esses vegetais o nome de autótrofos (ou seja, aqueles que produzem seu próprio alimento) ou produtores; enquanto que os demais seres são heterótrofos ou consumidores (dependem da alimentação produzida por outros). É através da alimentação que os heterótrofos aproveitam a energia e os materiais orgânicos (proteínas, açúcares, vitaminas etc.) armazenados pelos autótrofos.
Graças aos vegetais clorofilados, o oxigênio da atmosfera é renovado, pois a fotossíntese utiliza o gás carbônico produzido pela respiração de animais e plantas e libera oxigênio. Com o desenvolvimento e a difusão, há milhões de anos, dos vegetais clorofilados, foi-se acumulando um excesso de oxigênio que hoje possibilita a vida dos animais e do homem.
Cadeia alimentar. A energia e os materiais necessários à vida vão passando dos vegetais autótrofos aos outros seres. É a chamada cadeia alimentar. Um pé de cenoura, por exemplo, aproveita os materiais nutrientes que estão no solo, além de água, gás carbônico e luz do sul, e os transforma em substâncias necessárias para si mesmo e também imprescindíveis aos outros seres, e assim cresce e se desenvolve. Esse pé de cenoura pode servir de alimento para um coelho. O coelho, por sua vez, é comido por uma cobra, e esta pode ser caçada por uma ave de rapina. Os nutrientes e a energia passam de um desses seres para outro. Quando morre a ave ou qualquer outro animal ou vegetal, seres microscópicos se alimentam das moléculas do corpo morto e vão desfazendo, decompondo, partindo as substâncias que formavam aquele corpo e transformando-as em substâncias mais simples. Essas substâncias voltam à terra, e podem ser reaproveitadas por outras plantas, que por sua vez serão comidas por outros animais, e assim por diante.
Em cada uma dessas passagens ou transformações, parte da energia é gasta pelo ser vivo, para manter o corpo em funcionamento. Essa energia gasta não retorna completamente ao ecossistema; ela se dissipa, na forma de calor, e é constantemente reposta pela energia que vem do Sol.
Pode-se então resumir dizendo que um ecossistema é uma parte da natureza em que a energia vai sendo transmitida, transformada e reaproveitada até se perder. Como um jogo de xadrez, que pode se desenrolar por muito tempo e em muitas combinações de jogadas, mas que está sempre limitado ao tabuleiro, o jogo da vida também tem seu tabuleiro: o meio ambiente.
Um exemplo de ecossistema é um lago. Dele fazem parte as águas, a terra que está no fundo, os minerais e o oxigênio que se encontra na água, além dos vegetais e animais que aí vivem. Assim, o ecossistema é uma unidade, que funciona como se fosse um grande e único ser, composto de seres variados, da mesma forma como um corpo vivo compõe-se de unidades menores, as células, que também estão vivas e também se relacionam entre si.
O tamanho dos ecossistemas pode variar muito. Há ecossistemas muito grandes, como grandes regiões oceânicas, outros não tão grandes, como alguns quilômetros quadrados, por exemplo; pode haver outros ainda menores, como alguns metros quadrados de floresta num deserto, e outros ainda mais diminutos. Ao contrário dos ecossistemas criados e mantidos artificialmente, como um aquário ou um viveiro, os ecossistemas naturais nunca são completamente isolados nem têm fronteiras completamente definidas, porque a natureza está em constante movimento e mudança. (Um trecho de litoral, por exemplo, é um local onde pelo menos dois ecossistemas se superpõem parcialmente: um terrestre e outro marinho. Também nos limites de uma floresta encontramos uma espécie de combinação de ecossistemas diferentes).
Biomas e biosfera. Os ecossistemas de características semelhantes estão ligados entre si, em mútua influência, e formam unidades maiores, os biomas. Exemplos de biomas são as florestas tropicais úmidas (como a floresta amazônica), os oceanos, as regiões árticas cobertas por tundras, grandes regiões áridas e desérticas, etc. Esses biomas também têm fronteira pouco nítidas, áreas de transição e de mistura de características, e se influenciam mutuamente; desse modo, os ecossistemas do planeta se ligam entre si, formando como que um ecossistema gigantesco, que é a soma de todas as partes do planeta que contêm vida. Ao conjunto das partes da atmosfera e da crosta terrestre (incluindo os oceanos e mares) onde os seres vivos existem e se mantêm, dá-se o nome de biosfera (às vezes também chamada de ecosfera).
Equilíbrio ecológico. A idéia de equilíbrio ecológico surge da observação do funcionamento dos ecossistemas. Os ecologistas foram percebendo que nos ecossistemas há certa regularidade ou estabilidade dos fenômenos: as condições físicas e químicas não se alteram muito; as populações (isto é, o número de indivíduos de cada espécie) se mantêm mais ou menos iguais (com variações periódicas) ao longo do tempo; os hábitos e comportamento de cada indivíduo, e das espécies em geral, também seguem as mesmas regras, geração após geração. Além disso, as relações entre os seres vivos, e entre estes e o meio ambiente, se mantêm mais ou menos inalteradas. Por exemplo: em cada ecossistema o conjunto de plantas clorofiladas produz quantidades mais ou menos constantes de oxigênio; as necessidades de oxigênio alimento e energia de cada espécie também se modificam muito pouco; não há surgimento ou desaparição repentina de novas espécies.
Nos ecossistemas que ainda estão em formação ocorrem modificações mais rápidas; mas observou-se que, se são deixados sem interferência, esses ecossistemas novos acabam se estabilizando, ou seja, adquirindo certas características e componentes e se mantêm assim. Os ecossistemas tendem ao equilíbrio.
Todo ecossistema (como todo sistema, de modo geral) caracteriza-se pela interdependência entre seus vários elementos. Mas os ecossistemas são sistemas vivos, em permanente atividade e movimentação. Daí a idéia de equilíbrio. O ecossistema preserva as mesmas características ao longo do tempo, mas não é imóvel. Por exemplo, a população de determinada espécie de peixe, num lago, pode ser a mesma ou quase a mesma por muitos meses, mas nesse mesmo período novos peixes nasceram e outros morreram. Ou seja, há pequenas modificações durante todo o tempo, no ecossistema. Mas essas modificações acabam se compensando mutuamente, e o resultado final de tudo o que acontece não traz grandes alterações.
Há uma outra idéia ligada à de equilíbrio - a de que se alguma força ou ação exterior afeta o ecossistema sua tendência é retornar ao equilíbrio anterior. Mas se ação for muito forte, pode impedir a volta a esse equilíbrio.
Exemplos de desequilíbrios trazidos por causas externas ao ecossistema são, por exemplo, grandes acidentes geológicos, como erupções de vulcões e terremotos; e fenômenos meteorológicos, como grandes enchentes, tufões e furacões etc. No entanto, mesmo esses fatores de desequilíbrio são superados em tempo relativamente pequeno (pois para a natureza, alguns anos ou mesmo centenas de anos são um tempo mínimo, e muitos ecossistemas levaram milhões de anos para adquirir o equilíbrio atual).
Há porém um outro fator de desequilíbrio ecológico muito importante, e que merece ser estudado em separado: é a ação humana.
Ecologia humana. O ser humano é um ser vivo, um animal. Ele nasce, cresce e morre. E se reproduz, dando origem a outros seres semelhantes a ele. Os seres humanos fazem parte da natureza. Seu corpo funciona de maneira parecida com a de outros mamíferos e tem necessidades parecidas, das quais não pode se livrar: oxigênio, água e alimento, luz do Sol, temperatura nem muito quente nem muito fria, e assim por diante.
Como todos os seres vivos, o homem depende daquilo que está a seu redor para sobreviver. Assim como os outros seres vivos, o homem, ao viver, e para sobreviver, modifica seu ambiente; e ao mesmo tempo sofre influência desse mesmo ambiente.
Ecologia humana, ou ecologia social, é a disciplina que estuda as maneiras como, nas diversas sociedades, os seres humanos interagem, se relacionam com o ambiente (seja com o mundo físico ou com outros seres vivos) nas suas atividades.
Cada sociedade ou grupo humano tem de se adaptar às condições naturais (físicas, climáticas, biológicas) do lugar em que vive. O tipo de relação e de integração dos esquimós com seu meio ambiente, por exemplo, é bem diferente daquela que há entre os beduínos e os desertos em que vivem.
Não só a alimentação, o tipo de habitação, as roupas, o tamanho dos grupos e das famílias são muito diferentes. Há, além disso, diferenças na maneira como as sociedades se organizam, nas atividades consideradas mais importantes, e em várias outras.
Enquanto a economia (de oikos, "casa", "habitação"; e nomos, "maneira de usar aquilo que se possui, regra, costume") estuda apenas a maneira como os homens trabalham e se relacionam entre si para tirar da natureza aquilo de que necessitam, a ecologia humana se interessa pelas relações que os homens estabelecem entre si e com o meio ambiente.
A variedade dos hábitats do homem e os diversos modos como ele se adapta ao meio ambiente distinguem-no do restante da natureza. Essa diferença pode ser vista de vários ângulos: o homem é um animal que pensa, que fala, que trabalha. E devido a essa característica especial, é menor a influência direta dos elementos físicos e químicos e também dos instintos sobre seu comportamento.
Os vegetais geralmente se adaptam a ambientes diferentes ou à mudança de ambiente através da transformação de seus organismos: são mudanças morfológicas, porque alteram a forma, a constituição do organismo. Um exemplo: as árvores, para se adaptarem aos climas frios e secos, foram criando folhas menores, de modo a perderem menos líquido pela evaporação. As árvores que necessitam de muita luz adquiriram, aos poucos, troncos finos e longos, de modo que pudessem crescer mais que outras árvores da floresta e assim receber diretamente a luz do Sol.
Já os animais, devido a sua mobilidade, podem se adaptar não apenas pela modificação das características orgânicas, mas também por alterações em seu comportamento: por exemplo, podem migrar, ou seja, procurar locais com condições mais adequadas; podem adquirir outros hábitos alimentares ou de habitação. Além disso, no caso daqueles que vivem em grupos, pode modificar-se o tipo de relacionamento entre o indivíduo e seus semelhantes. A parte da biologia que estuda o comportamento animal é a etologia.
Todas as adaptações se dão de maneira natural, "automática", ou seja, como uma reação. No caso dos vegetais, a adaptação é em geral determinada por processos físicos e químicos. Nos animais, entram em ação os instintos. Ou seja, não há uma decisão, por parte desses seres ou espécies, de procurar soluções para problemas adaptação. A solução adaptativa acaba surgindo por si mesma.
O homem é o único ser vivo que, além de influir na natureza através de sua ação (como todos os demais), inventa e cria maneiras diferentes de ser relacionar com o ambiente. Os animais nascem sabendo praticamente tudo de que necessitam para sobreviver. Um pássaro, por exemplo, não ensina outro a voar ou a reconhecer quais são os alimentos que deve ingerir.
Já o homem tem instintos bem mais fracos; precisa que outros lhe ensinem a sobreviver. É graças à sociedade e aos conhecimentos por ela acumulados que a espécie humana consegue sobreviver. Eis porque, se por um lado o homem pertence à natureza, por outro se considera diferente dela. O ser humano tem uma autonomia maior. Se falta um tipo de alimento, pode decidir buscar outro ou inventar uma maneira de o conseguir. Se o inverno é rigoroso, ele pode produzir mais durante o ano e armazenar comida. Para isso, ele conta com as técnicas que foi desenvolvendo: a agricultura, a domesticação dos animais, o domínio do fogo, a fabricação de instrumentos. Se uma doença se espalha e mata muitos indivíduos, ele observa a natureza, pesquisa e faz experiências, para encontrar um remédio. Em lugar do instinto, é o conhecimento, a cultura, que permite ao homem se adaptar e sobreviver.
Essa característica humana tem outra conseqüência: graças ao pensamento, ao conhecimento, à capacidade de inventar e trabalhar, o homem não se limita a obter da natureza aquilo de que seu corpo necessita. Os outros animais são movidos pelos instintos: caçam quando têm fome, procuram abrigo quando têm frio ou correm perigo etc. É o corpo que exige esta ou aquela atividade. Já o homem faz aquilo que a sociedade lhe ensina.
Cada cultura transmite a seus membros idéias diferentes sobre o que é e o que não é necessário para a vida. O resultado disso é que enquanto os vegetais e animais estão integrados na natureza, e a modificam na medida do que lhes é fisicamente necessário, o homem pode tirar da natureza muito mais materiais e energia do que precisa para sobreviver.
Por isso, o homem é o ser vivo que mais modificações causa no meio ambiente. Suas necessidades não são as necessidades naturais, mas aquelas que ele "inventa" para si: o conforto para o corpo, as obras de arte para o espírito, a riqueza e glória que lhe rendem prestígio social.
O homem não se alimenta apenas para saciar a fome: também quer comer com prazer; não só tem descanso, mas lazer (música, dança etc.); não se limita a procurar proteção, mas faz oferendas às forças da natureza ou aos deuses em que crê; não apenas se abriga, mas quer roupas bonitas e, se é rico, uma casa luxuosa. Esse tipo de comportamento é encontrado, de uma forma ou de outra, em todas as sociedades.
No entanto, a história, a arqueologia e a ecologia humana ajudaram a perceber que, mesmo modificando o ambiente mais do que todos os outros animais e plantas, quase todas as sociedades que existiram até hoje estavam mais ou menos integradas a seu meio natural. Isso porque essas alterações do meio ambiente se davam num ritmo e numa extensão que não destruíam o equilíbrio ecológico, ou então permitiam que esse equilíbrio retornasse.
As sociedades, mesmo as maiores, eram relativamente pequenas. As grandes cidades da antiguidade contavam no máximo com alguns milhares de pessoas. Os grandes impérios antigos tinham várias regiões desabitadas. As agressões à natureza podiam causar danos locais ou até mesmo regionais, mas não eram suficientes para ameaçar grandes áreas e conjuntos de ecossistemas.
Somente nos últimos trezentos anos, com a revolução industrial, é que as técnicas de aproveitamento da energia e dos materiais da natureza se desenvolveram a ponto de ameaçar o equilíbrio ecológico e a vida de todo o planeta.
A população aumentou muito - e continua aumentando e se espalhando; as indústrias também crescem e se difundem. As modificações feitas pelo homem são tão numerosas e ocorrem simultaneamente em tantas partes do planeta que já não podem ser compensadas pela ação reguladora da natureza. Em vez disso, esses desequilíbrios vão se somando e se reforçando.
Podemos dividir os efeitos dos danos ao meio ambiente em dois grupos: os efeitos locais imediatos e os globais de longo prazo. Os efeitos locais podem ser sentidos diretamente pelos indivíduos: aumento da poluição do ar e das águas, mudanças no clima, problemas de saúde, surgimento de doenças e epidemias. Há também problemas sociais causados não pela destruição da natureza em si, mas pelo tipo de relação do homem com a natureza: um exemplo é o crescimento desordenado das cidades. Além disso, há certos efeitos que, embora locais e imediatos, podem não ser sentidos diretamente no local onde se dá a agressão à natureza. O fenômeno da chuva ácida, causado pela poluição da atmosfera, às vezes ocorre a muitos quilômetros do local onde ocorreu a poluição.
Ameaças à vida na Terra. Os efeitos globais (ou seja, que afetam todo o planeta) das alterações destrutivas causadas pela sociedade industrial podem não ser sentidos diretamente pelas pessoas, mas são ameaças muito sérias. São tão fortes e extensas que toda a biosfera está ameaçada.
Um dos perigos mais impressionantes é o das armas nucleares. Essas armas são tão destrutivas e existem em tão grande número, que 1% delas bastaria para destruir toda a vida na Terra. Mas não há apenas o perigo da guerra nuclear. Também os reatores atômicos são uma constante ameaça: acidentes ou falhas nessas usinas podem significar a contaminação e morte de milhares e até milhões de pessoas ou doenças sérias causadas por radioatividade (como câncer, mutações e deformações genéticas etc.). Além disso, o chamado lixo atômico, os restos de materiais radioativos empregados nas usinas, representa um perigo constante, pois a segurança dos depósitos desse lixo está longe de ser absoluta, e a radioatividade desses detritos pode durar, em certos casos, muitos milhares de anos - ou seja, mais do que o tempo de duração das embalagens que os envolvem.
Outra grande ameaça é a destruição da camada ou capa de ozônio. No alto da atmosfera (especialmente a uma altitude de 20-25km), e envolvendo todo o planeta, encontra-se uma camada em que há um gás chamado ozônio (formado por três átomos de oxigênio). Por serem instáveis, as moléculas desse gás são facilmente destrutíveis. Mas têm um papel muito importante: são elas que filtram as radiações provenientes do Sol. Além da luz, o Sol também emite raios ultravioleta, raios gama e raios X. Essas radiações são prejudiciais à vida e, dependendo da quantidade, podem ser até fatais. Os raios ultravioleta, por exemplo, podem causar queimaduras, câncer e cegueira. O ozônio impede que eles cheguem em grande quantidade e intensidade à superfície da Terra. Mas muitas substâncias químicas produzidas pelas indústrias (especialmente gases usados para refrigeração em geladeiras e aparelhos de ar condicionado) destroem as moléculas de ozônio. Os cientistas já localizaram alguns buracos nessa camada de ozônio (o maior deles sobre a Antártica), e por eles chegam à Terra as radiações prejudiciais à vida. Ultimamente, esses buracos têm aumentado num ritmo assustador.
Existe ainda a ameaça do efeito estufa. Milhões de toneladas de sujeira (poeira, pequenas partículas de fuligem e de detritos industriais etc.) flutuam na atmosfera, e, além de causar danos ao meio ambiente, também funcionam como uma espécie de refletor que impede que a luz do Sol alcance a superfície da Terra. Assim, isso faria com que a temperatura no planeta diminuísse. Acontece, entretanto, que o intenso uso de combustíveis fósseis (carvão e petróleo) produz quantidades muito grandes de gás carbônico (CO2). Esse gás impede que o calor da superfície da Terra se dissipe para as camadas mais altas. Ou seja, funciona como um cobertor que faz com que o calor se acumule, como numa estufa. Com isso, a temperatura da atmosfera pode gradativamente aumentar, de modo que venham a ocorrer alterações profundas no clima.
O mais grave, porém, é que, com o aquecimento, parte do gelo das regiões ártica e antártica (as calotas polares) pode chegar a derreter, e com isso o nível dos oceanos subirá, causando desastres ecológicos de proporções mundiais.
Há ainda outras ameaças, menos catastróficas, mas que também podem ser muito destrutivas se não forem combatidas. A maior delas - e à qual às vezes não se dá a devida importância - é a destruição ou extinção de espécies animais e vegetais.
A agressão pode ser direta: a caça já extinguiu e está extinguindo muitas espécies animais. A destruição de florestas (seja para obtenção de madeira, seja para construção de cidades, estradas e a criação de pastagens), além de inundar grandes áreas para a construção de hidrelétricas, também pode estar extinguindo espécies vegetais, muitas ainda desconhecidas do homem. Ou a agressão pode ser indireta: envenenamento causado por produtos químicos como inseticidas e fertilizantes (agrotóxicos); e poluição industrial (por exemplo, mercúrio, gases tóxicos etc.).
A extinção das espécies animais e vegetais traz outros problemas além de tornar o mundo mais feio e desinteressante. Pois esse processo de extinção pode acabar por prejudicar e até mesmo destruir a própria vida humana. Alguns cientistas calculam que centenas ou milhares de espécies, principalmente de vegetais, são destruídas antes mesmo que o homem chegue a ter conhecimento da existência delas. Muitas dessas espécies poderiam ser muito úteis, como fonte de substâncias importantes para a cura de doenças, por exemplo.
Mas isso não é tudo. Hoje em dia os ecologistas sabem que quanto maior a variedade de espécies de seres vivos, mais firme e estável é o equilíbrio ecológico. Essa diversidade da vida, ou biodiversidade, ajuda a garantir a sobrevivência dos ecossistemas quando agredidos. Assim, à medida que o homem vai causando a extinção de espécies, diminuem as chances de que o ecossistema planetário se recupere das agressões que sofre.
Um último fato a ser levado em conta é o esgotamento dos recursos naturais, ou seja, o conjunto de elementos - materiais e energias - que o homem encontra na natureza e pode utilizar em seu proveito. Os recursos naturais estão divididos em três grupos. Há o grupo dos recursos livres, ou seja, que podem ser usados livremente que jamais se extinguirão. Estão nesse grupo o ar e a luz solar. O segundo grupo é o dos recursos renováveis, os de origem animal ou vegetal: madeira, alimento. Esses recursos se esgotam ou se gastam, mas, como suas fontes são seres vivos, é sempre possível produzir mais, ou seja, renovar. Por último, há os recursos não-renováveis, que existem em quantidade limitada na natureza. Uma vez esgotados, não há como produzir mais: nesse grupo estão os minerais e os combustíveis minerais ou fósseis, como o petróleo.
A sociedade industrial moderna utiliza recursos naturais de todos os tipos e em quantidades imensas. Como já foi visto, antes da era industrial as comunidades não prejudicavam o equilíbrio dos ecossistemas naturais porque só utilizavam uma pequena parte de seus materiais e energias. Mas agora os danos são tão grandes que até mesmo os recursos livres, como ar e água, estão ameaçados pelo envenenamento da poluição.
Consciência ecológica e movimentos ecológicos. Foi por perceber os problemas graves trazidos pela agressão à natureza que a própria sociedade industrial e os governos de todos os países começaram a pensar em medidas e soluções possíveis, capazes de evitar a ameaça do desequilíbrio ecológico global e da destruição generalizada.
Consciência ecológica é a atenção que as pessoas estão prestando ao problema da destruição do meio ambiente físico, da flora e da fauna. Hoje em dia, a consciência ecológica está bastante difundida, o que leva muitos a se esforçarem por contribuir para uma solução do problema ecológico.
Movimento ecológico é a reunião de pessoas com o objetivo de pôr em prática propostas ou idéias para recuperar os estragos causados à natureza e impedir o aumento deles. Existem dois tipos de movimentos ecológicos. O primeiro agrupa os preservacionistas ou conservacionistas. São os que querem preservar ou conservar a natureza, impedir que as agressões ao meio ambiente se espalhem completamente.
Os diferentes grupos conservacionistas têm muitas metas: preservação de florestas, mares e outros ecossistemas importantes; proteção aos animais; diminuição da poluição através de pesquisas científicas, novos equipamentos e descoberta de novas técnicas; fabricação de produtos menos nocivos ao meio ambiente etc. Os conservacionistas, de modo geral, são os que querem que a ação humana sobre a natureza seja limitada por decisão do próprio homem, de modo que a destruição não passe de um máximo tolerável e não se espalhe indefinidamente. Certas áreas e domínios de vida natural ficariam a salvo da ação humana de modo a não pôr em perigo a vida na Terra.
O segundo tipo de movimento ecológico é o ecologismo. Os adeptos do ecologismo (que não devem ser confundidos com os ecologistas, cientistas que estudam a ecologia) querem, como os conservacionistas, proteger a natureza das agressões humanas, mas além disso têm outro objetivo: consideram que as agressões da sociedade industrial não prejudicam apenas a natureza, mas se voltam contra o próprio homem. O tipo de sociedade centralizada, burocrática, mecanizada, governada por técnicos e pela riqueza industrial é, na opinião deles, prejudicial. Traz mais desvantagens do que vantagens. Basta fazer as contas: a maior parte da população do planeta não é atendida sequer em suas necessidades básicas de alimentação e saúde. A maior parte habita países subdesenvolvidos. Ou seja, o conforto e as vantagens da sociedade industrial não atendem a todos.
A crítica dos ecologistas ao tipo de progresso trazido com a industrialização é que esse progresso consome e desperdiça muitos recursos naturais e energia. Cumpre observar que, com seus recursos naturais limitados, o planeta não tem capacidade de oferecer a toda a população do mundo um nível de vida semelhante ao das regiões desenvolvidas (Estados Unidos e Europa, principalmente).
Em outras palavras, os ecologistas estão convencidos (e há cada vez mais cientistas de todas as áreas pensando dessa maneira) de que as vantagens que a sociedade industrial oferece não compensam as desvantagens, crescentes e mais destrutivas.
Por isso, os ecologistas tentam encontrar alternativas para a vida humana em sociedade. Maneiras de viver que tragam saúde, conforto, paz, lazer e boa qualidade de vida, sem para isso destruir a natureza e causar a pobreza de uma parte da população.
Isso não quer dizer que o ecologismo seja contra a tecnologia e o desenvolvimento. Ao contrário, ele defende uma tecnologia científica que entenda e respeite a natureza. As técnicas e o modo de produção da sociedade moderna quase nunca seriam os mais adequados, enquanto os de uma sociedade ecológica seriam escolhidos de acordo com o menor dano à natureza e os melhores resultados coletivos.
Uma das idéias mais importantes é a do desenvolvimento sustentável. Isso quer dizer que em vez de se buscar o progresso a qualquer custo (progresso que nem sempre traz melhoria real da qualidade de vida para todos), em vez de se procurar o aumento das riquezas e do poder a qualquer custo (mesmo o da destruição), em vez disso é preciso organizar a sociedade de modo que ela dê o máximo de condições de vida e de conforto para todas as pessoas, sem para isso depender de agressões à natureza. Todo desenvolvimento ou progresso material deve ser avaliado. Só valeria a pena aquele que fosse sustentável, ou seja, que pudesse ser realizado no presente e também pelas gerações futuras. Um modelo predador não é sustentável, pois não pode se manter indefinidamente. Ele só é capaz de proporcionar conforto, no presente, à custa de um futuro ameaçador para as gerações que estão por vir.
Fonte: Sítio Barsa

Por Cida Medeiros



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